Os Sectores da Bolsa
Os sectores que fazem girar as bolsas e o capital
Confesso que o artigo de 2ª feira passada foi dos mais aborrecidos de escrever, de tão cinzento que era o tema.
Mas era importante fazê-lo, principalmente para quem está a começar do zero.
É daqueles assuntos que fazem parte das fundações, das bases de algo que funciona.
Hoje, entramos em detalhe num dos sectores mencionados nesse artigo (o mercado bolsista) e que é um dos focos deste Diário, já que é a casa das Ações e, por consequência, também dos ETF’s.
A “rotação de capital” de que falámos anteriormente, é visível nas bolsas e depende de vários factores - é disso que vamos falar hoje.
Comecemos pelos principais sectores da bolsa (de acordo com a tradição americana, que a originou).
Tecnologia
Este sector engloba as empresas de desenvolvimento de software, chips, infraestrutura de cloud, desenvolvimento de I.A., hardware e serviços de internet.
Nos últimos anos, tem sido o sector favorito dos mercados graças ao crescimento elevado, inovação constante e lucros históricos.
O sector tecnológico está associado às maiores histórias de sucesso dos últimos anos, bem como a grandes quedas. Tem sido um sector excelente para fazer crescer portfolios e também para apanhar alguns sustos - pouco recomendável a quem tem um perfil mais calmo e conservador.
Alguns dos principais nomes do mercado americano:
Apple, Microsoft, Alphabet (Google), Amazon, Meta, Nvidia, Tesla.
Alguns dos principais nomes do mercado europeu:
ASML, SAP, Siemens, Infineon, Nokia, Prosus, Ubisoft, Spotify, Adyen.
Financeiro
O sector que faz girar a economia, inclui bancos, seguradoras, gestoras de activos, empresas de pagamentos. Empresas cujos lucros provêm, maioritariamente, do dinheiro que emprestam, das taxas que cobram e dos investimentos que fazem.
É um sector sensível às mexidas nas taxas de juros, ciclos económicos e à confiança (ou falta dela). Portanto, quando a economia está de boa saúde, é um sector que costuma beneficiar. Quando as coisas apertam, ressente-se.
Alguns dos principais nomes do mercado americano:
JPMorgan, Berkshire Hathaway, Bank of America, Citigroup, Goldman Sachs, Visa, Mastercard.
Alguns dos principais nomes do mercado europeu:
HSBC, BNP Paribas, Allianz, Deutsche Bank, Santander, ING Group, UBS, Barclays.
Saúde
Há quem goste de falar de saúde, há quem prefira evitar, mas todos precisamos dela. Este sector inclui as farmacêuticas, empresas de biotecnologia e fabricantes de equipamentos médicos.
Costuma ser considerado um sector defensivo (com excepção das empresas de biotecnologia), principalmente para quem tem horizontes de investimento longos, por não ser tão sensível a crises económicas e por ter uma procura relativamente constante.
Alguns dos principais nomes do mercado americano:
Eli Lilly, Johnson & Johnson, UnitedHealth Group, Pfizer, Merck, Abbvie, Amgen.
Alguns dos principais nomes do mercado europeu:
Novo Nordisk, Roche, Novartis, AstraZeneca, Sanofi, Bayer, BioNTech, GlaxoSmithKline.
Consumo básico / essencial
O sector dos bens considerados essenciais, aqueles que se compram sempre - alimentos, bebidas, produtos de higiene e outros bens essenciais do dia-a-dia.
É um sector de crescimento lento, mas com uma procura regular e, por consequência, menos volatilidade.
Pode dizer-se que é um sector cinzento, mas também não provoca taquicardias, ao contrário de outros.
Alguns dos principais nomes do mercado americano:
Procter & Gamble, Costco, Coca-Cola, Pepsi, Walmart, General Mills, Kellogg, Kimberly-Clark, Hershey.
Alguns dos principais nomes do mercado europeu:
Nestlé, Diageo, Danone, Unilever, Anheuser‑Busch InBev, Heineken, Reckitt Benckiser, Ahold Delhaize.
Consumo discricionário
Se considerarmos o sector anterior o do “preciso”, então o Consumo Discricionário é o sector do “quero”.
Inclui empresas ligadas ao sector automóvel, viagens, retalho especializado e marcas de consumo não essencial em geral.
Tal como o sector Financeiro, também este beneficia de economias fortes onde abunda o consumo. Mas, quando os rendimentos das famílias são prejudicados e a confiança do consumidor cai, este sector é dos primeiros a sofrer.
Alguns dos principais nomes do mercado americano:
Amazon, Home Depot, Nike, Lowe’s, Target, Booking, Marriott, Hilton, Chipotle.
Alguns dos principais nomes do mercado europeu:
LVMH, Hermès, Richemont, L’Oréal, Inditex, Ferrari, Adidas, Mercedes‑Benz, Compass Group.
Energia
Abrange as empresas de petróleo, gás, energias renováveis e empresas de infraestruturas e distribuição energética.
É um sector altamente influenciado por acontecimentos geopolíticos e ciclos económicos.
Há quem diga que é um sector com alguma previsibilidade por ser cíclico mas, a verdade é que estes ciclos são imprevisíveis e acarretam uma boa dose de volatilidade.
Alguns dos principais nomes do mercado americano:
ExxonMobil, Chevron, ConocoPhillips, Occidental Petroleum, Valero Energy, Pioneer Natural Resources, Kinder Morgan.
Alguns dos principais nomes do mercado europeu:
Shell, Total, BP, Eni, Repsol, Iberdrola, Galp, Equinor, Vestas Wind Systems.
Indústria
Se o sector Financeiro é o que faz girar a economia, podemos dizer que o sector Industrial faz mexer o mundo.
Abrange empresas de construção, transportes, logística e defesa.
Está muito relacionado com os ciclos económicos, acompanhando-os de perto quando há crescimento económico e quando abunda o investimento público e privado. Em períodos de contracção ou de recessão, costuma sofrer.
Alguns dos principais nomes do mercado americano:
Caterpillar, General Electric, Lockheed Martin, Deere & Company, 3M, Honeywell, FedEx.
Alguns dos principais nomes do mercado europeu:
Airbus, Schneider Electric, Safran, Rolls-Royce, Thales, ABB, Volkswagen, Vinci.
Materiais
A base de tudo o resto... papel, madeira, químicos, metais.
As empresas deste segmento crescem quando há muita procura por estes materiais, sendo por isso também ele cíclico e sensível à inflação.
Alguns dos principais nomes do mercado americano:
Linde, Newmont, DuPont, Steel Dynamics, Sherwin-Williams, Air Products, CF Industries.
Alguns dos principais nomes do mercado europeu:
Rio Tinto, BASF, Glencore, Anglo American, BHP Group, Symrise, Heidelberg Materials.
Serviços
Aqueles sem os quais a sociedade contemporânea já não vive: água, luz, aquecimento, saneamento e telecomunicações - desde as empresas que prestam estes serviços até às responsáveis pela infraestrutura que garante o funcionamento dos mesmos.
É um segmento em que a maioria das empresas tem receitas relativamente previsíveis, o que não significa necessariamente que tenham um crescimento rápido. A regulamentação é apertada e a concorrência é forte.
Por estes motivos, costuma ser um sector preferido por investidores conservadores e por todos aqueles que procuram alguma tranquilidade em fases de incerteza.
Alguns dos principais nomes do mercado americano:
Comcast, Verizon, Netflix, Disney, DoorDash, Uber, Starbucks, Walmart, McDonald’s.
Alguns dos principais nomes do mercado europeu:
Vodafone, Deutsche Telekom, Iberdrola, Enel, Vivendi, Orange, E.On.
[Extra] Criptomoedas
Nos mercados tradicionais, as Criptomoedas ainda são olhadas de lado mas, para quem tem interesse, nunca é demais relembrar aquilo que já disse aqui e que tem paralelismo com aquilo que escrevi em cima.
Também no mercado das Criptomoedas existem sectores que, embora sejam mais fluídos e se misturem muitas vezes, ajudam-nos a perceber a utilidade da criptomoeda em questão e as tendências do mercado.
Ao contrário dos sectores tradicionais, já sabemos que as Criptomoedas são altamente voláteis, funcionam 24/7 e ainda são guiadas por narrativas.
De forma muito simplificada, os sectores - actualmente - com maior relevância são:
os pagamentos com stablecoins (USDC, USDT, EURC...);
infra-estruturas;
gaming;
Inteligência Artificial;
NOTA: por “maior relevância”, refiro-me a procura e interesse. Não significa que os tokens associados aos projectos tenham utilidade ou vão valorizar-se - esta é uma análise que tem de ser feita sempre caso a caso.
E claro, a Bitcoin que, sendo entendida como reserva de valor digital, vive no seu próprio sector.
E as commodities?
As bolsas mundiais não consideram as commodities como o Ouro, Prata, Petróleo, Cacau, Café, etc, como um sector, porque elas não são empresas nem têm documentação passível de ser analisada.
Estas matérias primas entram no meio desta conversa porque:
estão incluídas nos sectores Energéticos e de Materiais - comprar Ações ou ETFs de empresas destes sectores oferece uma exposição indirecta a commodities específicas;
podem ser negociadas como activos independentes através de ETFs ou ETCs através das mesmas aplicações onde compramos Ações e outros ETFs;
Apesar de não serem incluídas nos sectores tradicionais das bolsas, faz sentido considerá-las neste contexto, porque são ferramentas muito procuradas por investidores como forma de protecção contra a inflação e para diversificação de portfolios.
Conclusão
Juntando o artigo de hoje com o anterior, já deverás começar a ficar com uma ideia melhor de como funciona a rotação de capital nas bolsas. Não é por acaso que quando uns sectores caem, outros se mantêm estáveis ou até a subir. Tal como também não é por acaso que uns subam rapidamente, enquanto outros marcam passo.
Como de costume, nada do que aqui foi dito é recomendação de investimento. As empresas mencionadas são meros exemplos de referência.



