Ethereum e Layers 2: a infraestrutura financeira da internet
Porque nasceu a Ethereum, como se distingue da Bitcoin e o papel das Layers 2
No sector das criptomoedas, é frequente ouvir-se dizer que existe a Bitcoin e depois existem as outras.
É normal. A Bitcoin foi a primeira, conforme já falámos aqui. É a mais antiga, a mais conhecida, a que tem maior aceitação a nível mundial e a que tem um histórico mais sólido (sem hacks nem problemas técnicos relevantes).
Mas, poucos anos depois da Bitcoin nascer, alguém fez uma pergunta bastante simples:
“E se a blockchain pudesse fazer mais coisas do que apenas transferir dinheiro?”
Essa pergunta acabou por dar origem à Ethereum.
E, com o passar dos anos, também acabou por criar algo ainda mais curioso: as Layers 2.
É disso que vamos falar hoje.
Enquanto alguns continuam a dizer que as criptomoedas são um scam e não servem para nada, outros andam há anos a desenvolver verdadeiros ecossistemas com milhões de utilizadores por todo o mundo e que movimentam milhões e milhões de dólares anualmente.
Como já disse em artigos anteriores, é preciso saber separar o trigo do joio. É verdade que há muitas criptomoedas que não servem para nada, mas generalizar isso a um sector que há anos que não pára de crescer, é pura ignorância.
O que é a Ethereum e qual a sua origem
A Ethereum foi proposta em 2013 por Vitalik Buterin, um programador que na altura tinha pouco mais de 19 anos.
A ideia era relativamente simples:
a Bitcoin provou que era possível criar dinheiro digital descentralizado;
a tecnologia por trás da Bitcoin - a blockchain - tinha potencial para muito mais, que não estava a ser aproveitado;
Foi esta a génese da Ethereum.
Enquanto a Bitcoin é essencialmente uma rede para transferir valor (ou como reserva de valor, conforme falámos aqui), a Ethereum foi pensada como uma plataforma onde se podem executar programas.
Esses programas chamam-se smart contracts.
Na prática, isto permite criar aplicações inteiras dentro da blockchain:
protocolos de empréstimos;
NFTs;
jogos;
tokenização de activos;
Ou seja, a Ethereum transformou a blockchain numa espécie de computador global descentralizado.
Ambicioso? Sem dúvida.
Funciona? Sim.
A adopção é global? Ainda não, mas para lá caminha.
Bitcoin vs Ethereum
Comparar Bitcoin e Ethereum é uma tentação comum.
Mas, na prática, elas resolvem problemas diferentes.
De forma muito simples:
Bitcoin:
foco principal: dinheiro digital;
narrativa dominante: reserva de valor;
oferta fixa (21 milhões);
intencionalmente simples;
Ethereum:
foco principal: infraestrutura para aplicações;
funciona como um “sistema operativo” para blockchains;
permite criar tokens, aplicações e novos mercados financeiros;
Por outras palavras, podemos dizer que:
A Ethereum tenta reinventar a infraestrutura do sistema financeiro.
Como é que a Ethereum está a mudar o sistema financeiro
Hoje, grande parte do sistema financeiro funciona através de uma rede complexa de intermediários:
bancos,
bolsas,
serviços/empresas de custódia,
sistemas de liquidação,
Quando compramos uma Ação, por exemplo, a transacção não é liquidada imediatamente. Pode demorar desde minutos até dois dias úteis (o chamado T+2).
Durante esse tempo, várias instituições precisam de confirmar, registar e reconciliar a operação.
É um sistema que funciona - mas, muito dele, foi construído com tecnologia dos anos 80 e 90 - mais do que suficiente para dar resposta às necessidades de então.
A proposta da Ethereum é diferente.
Em vez de cada instituição manter a sua própria base de dados, todas as transações podem ser registadas numa infraestrutura comum, aberta e programável: a blockchain.
Neste modelo:
activos podem ser tokenizados;
transferências podem ser quase instantâneas;
os contratos podem ser executados automaticamente através de smart contracts;
Na prática, isto significa que partes inteiras da infraestrutura financeira - liquidação, custódia, compensação - podem ser executadas directamente em software aberto e público e não através de de programas proprietários de determinadas empresas.
Sem tantos intermediários, mais transparente e com menos limitações.
É por isso que muitos investidores institucionais começaram a olhar para esta tecnologia com mais atenção e começaram também a investir nela.
Não porque a Ethereum vá substituir bancos de um dia para o outro, mas porque pode transformar a forma como os activos são emitidos, negociados e liquidados.
Fazem-se frequentemente paralelismos entre o surgimento da internet e a blockchain e aqui, podemos aplicar também um:
Se a internet mudou a forma como a informação circula, a Ethereum está a tentar fazer o mesmo com o valor financeiro.
O problema da Ethereum
Isto não seria um artigo do Diário Cinzento se não houvesse um mas… neste caso, conhecido como “o trilema das blockchains”:
Quando a Ethereum começou a ser usada a sério, apareceu um problema comum em muitos projectos - a escalabilidade.
Quanto mais pessoas e projectos usavam a rede, mais lenta e cara ficava a sua utilização.
Cada transacção ou operação numa blockchain precisa de ser processada por milhares de computadores espalhados pelo mundo.
Isto garante segurança.
Mas também cria um limite natural de capacidade.
Durante vários períodos (especialmente em bull markets), usar a Ethereum chegou a custar $20, $50, às vezes mais de $100 por transacção.
Para transferir dinheiro ou fazer pagamentos, isto é absurdo.
Para usar uma aplicação financeira… também não ajuda.
Como diz o povo, “a necessidade aguça o engenho” e foi assim que surgiram as Layers 2.
O que são as Layers 2
As Layers 2 são redes construídas por cima da Ethereum.
A ideia é:
em vez de fazer todas as operações directamente na Ethereum (Layer 1),
fazem-se milhares de operações numa rede secundária (Layer 2),
depois envia-se apenas o resultado final para a Ethereum,
É como fazer as contas numa folha de papel e entregar apenas o resultado final ao professor.
Existem várias Layers 2. Actualmente, por market cap , as principais Layers 2 são:
Arbitrum
Base
Optimism
Polygon
Starknet
zkSync
Estas redes conseguem processar muito mais transações e com custos muito mais baixos.
Enquanto uma transação na Ethereum pode custar alguns dólares, numa Layer 2 pode custar cêntimos.
A segurança continua a vir da própria Ethereum.
A importância das Layer 2
Se a Ethereum quer ser a infraestrutura financeira da internet, tem de ser capaz de suportar milhões de utilizadores. Não apenas milhares.
As Layers 2 são, neste momento, a principal estratégia para resolver esse problema.
A Ethereum funciona como a camada de segurança e liquidação final - a base, a infraestrutura.
As Layers 2 funcionam como as vias rápidas onde o tráfego realmente acontece - onde se criam aplicações para diversos fins.
A importância da Ethereum em 2026
Em 2026, a Ethereum já não é apenas um projecto experimental. Está cada vez mais integrada no sistema financeiro tradicional.
Alguns exemplos:
já foram criados ETFs de Ethereum em Wall Street;
algumas empresas começaram a optar por investir parte das suas reservas em Ethereum em vez de Bitcoin;
grandes instituições começaram a experimentar tokenização de activos (tema para um próximo artigo);
fundos e obrigações já estão a ser emitidos na blockchain;
A BlackRock, por exemplo, lançou um fundo tokenizado directamente na blockchain Ethereum.
O CEO da BlackRock, Larry Fink, tem repetido várias vezes que o futuro dos mercados passa por tokenizar activos financeiros e colocá-los na blockchain.
A ideia é simples: em vez de sistemas fechados e lentos, os activos financeiros poderiam circular em redes abertas e programáveis.
Por outras palavras: as bolsas tradicionais podem vir a funcionar mais como software do que como instituições.
Também Cathie Wood, da ARK Invest, tem defendido que a Ethereum pode tornar-se uma das infraestruturas base da economia digital - especialmente em áreas como finanças descentralizadas, tokenização e stablecoins.
Se estas previsões se confirmarem, a Ethereum pode vir a desempenhar um papel semelhante ao que a internet teve para a informação.
As métricas que definem a Ethereum
Segundo o site DefiLlama, estas são as actuais métricas da Ethereum:
Estes dados mudam diariamente e qualquer pessoa pode consultá-los aqui.
Como disse no início, quem diz que nada se passa com as criptomoedas, que estas não geram receita e que ninguém consegue avaliá-las porque se baseiam em nada… só me resta suspirar e encolher os ombros perante a ignorância.
Note-se que a ignorância, em si, não tem nada de mal. Já espalhá-la por aí… é bem mais perigoso.
Os dados em cima - públicos para quem quiser ver - mostram-nos:
a receita diária da Ethereum,
as fees cobradas diariamente,
a receita gerada pelas aplicações que correm em cima da Ethereum,
as fees pagas pelos utilizadores destas aplicações,
e uma série de outros dados que nos ajudam a perceber o nível de utilização da desta blockchain em específico.
De referir que, escrevo este artigo na véspera da sua publicação, num fim-de-semana (geralmente, um período de baixo volume de transacções) e, numa altura em que estamos num bear market - ou seja, o interesse e entusiasmo dos utilizadores, é baixo.
Sugiro consultarem estes dados num dia de semana e numa fase de alta do mercado.
Resumindo
A Ethereum nasceu de uma ideia simples:
usar a blockchain para mais do que apenas dinheiro.
Essa ideia deu origem a:
milhares de aplicações;
novos mercados financeiros;
um ecossistema inteiro de blockchains secundárias;
As Layers 2 são apenas o capítulo mais recente dessa evolução.
Vão funcionar no longo prazo? Ninguém sabe.
Mas uma coisa é certa. Se a Ethereum quiser suportar centenas de milhões de utilizadores, precisa de algo mais do que boas intenções.
E, para já, as Layers 2 são a melhor solução em funcionamento.
NOTA: Como de costume, nada do que aqui foi dito é recomendação de investimento. Este é um artigo meramente informativo/educacional.




