Investir no contexto actual - parte 1
Quem quer investir na queda e incerteza?
Hoje faço uma breve pausa naquilo que tinha programado para os artigo deste mês.
Acho que está na hora de um breve balanço do primeiro trimestre e de tentar (ênfase no tentar mesmo) tirar alguma conclusão desta confusão e instabilidade toda.
Começar a investir agora, com tudo o que se passa no mundo, pode parecer coisa de loucos.
E, quem já investe - ou já tem experiência suficiente para se manter calmo/a - ou o mais certo é estar a pensar em guardar o que sobra debaixo de um colchão.
A verdade é que, mesmo para quem já acompanha estas coisas há algum tempo, a rapidez com que as coisas mudam é tão grande, que às vezes parece que nos convidaram para participar numa corrida de clássicos, mas à última da hora, passou a ser uma corrida de fórmula 1 e não nos avisaram atempadamente.
Vou tentar deixar o economês de lado e as comparações com carros e partilhar contigo aquilo que é observável nestes primeiros meses de 2026 - e o que isto quer dizer para o nosso dinheiro.
Antes da tempestade
No início do ano, fiz também uma espécie de ponto de situação macro e neste artigo de 9 de Janeiro, falei inclusivamente daquela que era a “ovelha negra” que eu iria acompanhar de perto este ano.
Desde então, essa “ovelha” subiu quase 90%!
Só me arrependo de não ter investido mais nela, enfim... desabafos à parte, para quem não leu esses artigos, deixo aqui um breve resumo, porque é importante para se perceber as águas que navegamos actualmente.
2025 foi, em grande medida, um bom ano para quem já estava investido nos mercados:
S&P 500 subiu cerca de 18%
NASDAQ subiu perto de 21%
STOXX 600 subiu cerca de 15%
MSCI World subiu perto de 11%
Ouro passou os 50% de valorização
Bitcoin chegou a valorizar 26%, mas quem guardou o ano todo de 2025, acabou por fechar com prejuízo de 9%
Petróleo fechou 2025 com um prejuízo que passou os 20%.
NOTA: com excepção do STOXX, todos os dados apresentados usam USD como moeda base, pelo que é necessário dar um desconto da variação cambial EUR/USD.
2026 - ano do cisne...?
Os Chineses dizem que 2026 é o ano do Cavalo mas, nos mercados, começa a parecer o ano dos cisnes... vou chamar-lhe “cinzentos”, porque ainda não chegámos ao ponto de um black swan event.
Janeiro trouxe-nos o ataque à Venezuela e o primeiro sinal de confirmação daquilo que já tinha dito no início do ano sobre o Petróleo - o activo com maior potencial valorização (pelo menos, nos primeiros meses) - porque se Trump quer ficar bem nas eleições de Novembro, o preço tem de voltar abaixo dos $70, idealmente à casa dos $50-60.
Em Fevereiro, os EUA e Israel lançaram operações militares contra o Irão. Sem entrar em geopolítica, o que nos interessa é simples: o Estreito de Ormuz - por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial - ficou bloqueado para o tráfego normal. Mais de 200 navios a vaguear pela região. Refinarias atingidas. Exportações interrompidas.
Os mercados não gostaram. E foi a segunda confirmação do Petróleo.
O Petróleo começou o ano na casa dos $60 e em Março quase bateu nos $120.
Isto significa algo que já todos ouvimos nas notícias: um choque na oferta - o tipo de coisa que os economistas comparam aos anos 70, quando o petróleo quadruplicou de preço e o Ocidente entrou em estagflação (inflação alta + crescimento fraco → a combinação mais desagradável que existe).
Os três da vida airada: inflação, juros e crescimento
Se tivéssemos de resumir o início de 2026 em três palavras, seriam:
Desaceleração. Resistência. Incerteza.
A inflação continua a descer… mas lentamente (mais teimosa do que o esperado).
Os juros continuam altos… mas já não estão a subir como antes.
O crescimento económico está num impasse - nem colapsa (o que é bom), mas também não mexe muito (o que não é bom).
Isto quer dizer que os bancos centrais, especialmente o FED (EUA), estão numa posição delicada porque não querem impor medidas que prejudique mais a economia, mas se a tentarem estimular com as medidas habituais, arriscam-se a que inflação volte a disparar.
A situação que vivemos actualmente, aponta-nos para um cenário grave, a tal stagflation mencionada em cima.
Se ainda não ouviste este termo nas notícias, tudo indica que será dos mais usados este ano:
estagflação = inflação alta + economia parada (ou com crescimento pouco relevante)
Os resultados práticos de tudo isto
No dia a dia
Quem não liga nenhuma aos mercados, já sentiu nas carteiras... se os custos das cadeias de produção dos produtos são afectados, claro que o consumidor vai ter de pagar mais. Nada de novo aqui.
Aquilo que a maioria dos consumidores talvez não saiba é que, mesmo que a situação do estreito de Ormuz se resolva, isso vai demorar a reflectir-se na economia real, nos preços dos bens de consumo do dia a dia.
Se, para a semana, o petróleo voltasse para os $60, isso não iria afectar de imediato o preço dos combustíveis. Isto deve-se à questão da estabilidade dos preços (seria preciso garantir que o preço não caíu por acaso), os stocks já comprados a preços altos, o câmbio e o ajuste nos impostos (ISP).
Ou seja, na economia real, a resolução “pacífica” desta situação, ainda demoraria semanas a reflectir-se.
Já nos mercados...
As coisas são muito mais voláteis e acontecem com outra velocidade.
O ano até começou bem, mas desde então tem sido a piorar, com Março a acelerar essa tendência.
S&P 500 tem estado em queda constante, salvo breves recuperações - sector tecnológico tem sido, previsivelmente, o mais afectado. Já o da Energia, tem sido o que está a reagir melhor.
STOXX 600 também está no negativo, com os sectores de Seguros e de Bens de Consumo a sofrerem mais. No lado positivo, está também o sector da Energia.
MSCI World segue a tendência negativa dos EUA e Europa e nem os bons resultados dos grandes exportadores de petróleo chegam para puxar este índice para o positivo.
Ouro atingiu máximos históricos no início do ano e os grandes investidores aproveitaram para realizar lucros, começando grandes vendas que têm puxado o preço para baixo. Ainda assim, para quem já tinha Ouro em carteira (antes de 2026), continua a ser o activo que dá um brilhozinho aos portfolios.
Bitcoin mostrou que, no caso de guerras, continua a ter uma correlação maior com algo com o NASDAQ (activo de risco) do que com o Ouro (activo de refúgio). Por outro lado, tem mostrado uma resiliência curiosa, mantendo-se na mesma faixa de preços desde o início de Fevereiro.
Petróleo... acho que já toda a gente sabe.
O que fazer com estas informações
EUA e Europa parecem estar encurralados devido ao explicado em cima - risco cada vez maior de estagflação.
Portanto, se nem os Bancos Centrais sabem bem como lidar com a situação, nem tão pouco os gurus de Wall Street, o que podemos nós, comuns mortais, fazer?
Ter cuidado com os conselhos nas redes sociais e nos media.
Os últimos 100 anos mostram-nos que os mercados recuperam sempre destes choques. A dúvida é: quando? Quem vendeu em pânico em Março de 2020 (COVID) ou em 2022 (invasão da Ucrânia), ficou de fora da recuperação.
Para muitas pessoas, o melhor pode ser não fazer nada, principalmente se já estiver a seguir um plano de longo prazo de compras regulares (vulgo DCA) → neste caso, o plano é para seguir. Investir neste cenário/contexto parece ser para malucos mas, em retrospectiva, também costuma ser onde se constroem os retornos futuros.
Factos incontornáveis, que é sempre bom relembrar:
A Diversificação funciona. Quem investiu tudo no sector Tecnológico, estará a ter mais dificuldades. Quem tem activos não correlacionados em carteira, estará mais tranquilo.
O Ouro cumpriu o seu papel. Quem investiu ao longo do tempo, recolheu benefícios nos últimos meses (assumindo que vendeu perto do topo) ou ainda poderá ir a tempo de o fazer - antes de uma previsível correcção.
Bitcoin (ainda) não é o Ouro digital. Pode servir de alternativa à desvalorização de moedas como o Dólar, mas ainda não substitui o Ouro em alturas de guerra.
O risco cambial é tão real como a Diversificação. Investir em Dólares quando se vive em Euros, tem implicações claras.
O Petróleo, sendo um bem altamente inflacionário, complica tudo - a gasolina é apenas o começo, depois vem tudo o que dela depende (transportes, produção, alimentação).
Os mercados detestam incerteza. E neste momento, incerteza é coisa que não falta: até quando dura o conflito? Quando é normalizada a circulação no estreito? Os Bancos Centrais vão cortar ou manter as taxas de juro? A estagflação vai confirmar-se? Por uns meses ou será duradoura?
Perante este cenário complexo, é bom lembrar também alguns princípios já repetidos ao longo de artigos anteriores:
Investir, deve ser feito com método e plano;
Diversificar entre activos de qualidade e com o risco cambial em mente;
Manter a cabeça fria e deixar o Tempo fazer o trabalho pesado.
Perante isto, seria interessante analisar também algumas opções que existem por aí.
Mas como este artigo já ficou um pouco longo de mais, continuamos o assunto no próximo 😉
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NOTA: Como de costume, nada do que aqui foi dito é recomendação de investimento. Este é um artigo meramente informativo/educacional.


