Mercados tradicionais - ponto de situação
Ponto de partida para 2026, nos mercados accionistas.
No seguimento do artigo anterior, tinha de fazer também uma versão para os mercados tradicionais - o ponto de situação de 2025, que serve de ponto de partida para 2026.
Se preferes investir em Acções ou ETF’s, em vez de Criptomoedas, este artigo é para ti.
A lógica é a mesma: deixemos as previsões para os astrólogos e vamos olhar para os acontecimentos que marcaram 2025, que nos ajudam a perceber onde estamos actualmente e nos permitem preparar para o que poderá vir.
A poeira dos primeiros dias de 2026
Ainda antes de olharmos para o ano de 2025 e tentarmos perceber o terreno que nos deixou, temos de falar do arranque de 2026 - enquanto escrevia este artigo (no fim-de-semana passado), Trump resolveu atacar a Venezuela. Obviamente que este acontecimento, condicionou aquilo que estava a escrever, embora não tenha mudado muito a minha análise pessoal, de que falarei na secção final, dedicada aos apoiantes do DC.
Portanto, nem uma semana de 2026 estava completa e já a poeira se levantava, dificultando ainda mais qualquer análise dos mercados.
Por esta altura, já toda a gente sabe o que os EUA fizeram e os motivos.
Este Diário não existe para análises políticas, mas sim para tentar perceber o impacto que estes acontecimentos podem ter nos mercados e, por consequência, nos nossos investimentos.
Como disse na nota que enviei a meio da semana aos leitores do DC, quando vemos acontecimentos graves a acontecer, é mais sensato esperar alguns dias para perceber melhor o impacto e, acima de tudo, para ver como os mercados reagem.
Muitas vezes, as notícias e analistas que aparecem nas televisões apresentam sinais contraditórios entre eles - normal, cada cabeça sua sentença. Mas, o que realmente interessa aos investidores, é como reage o mercado.
E, até agora, vemos mais poeira do que águas cristalinas.
Ao contrário do que alguns analistas diziam, o Petróleo não caíu a pique. E, as petrolíferas americanas também não subiram vertiginosamente. Podemos destacar a subida da Chevron, uma das petrolíferas americanas que já há alguns anos que tem uma presença sólida da Venezuela. Outras, como a ConocoPhillips, Valero ou Exxon, também tiveram um bom início de semana. Mas será uma valorização baseada apenas nas notícias recentes ou em algo mais fundamentado?
Penso que a maioria das pessoas que lê aqui o DC, são investidores (longo prazo) e não traders (curto prazo). Portanto, a primazia destes artigos vai para o crescimento sustentado, que costuma ser o que dá resultados no longo prazo.
Num ponto, todos os analistas que ouvi até agora parecem concordar: a infraestrutura da Venezuela é frágil, antiga e precisa de um grande investimento para poder ser verdadeiramente aproveitada.
Quem vai fazer esse investimento? As empresas, claro. Mesmo que existam incentivos do governo americano, isto é algo que ainda vai demorar algum tempo a dar resultados. Por isso, apesar do optimismo inicial em relação ao desempenho das petrolíferas, a verdade é que tudo isto pode demorar anos a materializar-se. Isto para nem falar da instabilidade geográfica que poderá manter-se nos próximos tempos e até do enquadramento legal desta acção dos EUA.
Resumindo estes primeiros dias de 2026: muita poeira no ar e pouca visibilidade.
Olhemos então para 2025, para ver se conseguimos vislumbrar algo mais nítido.
Acontecimentos marcantes de 2025
O ano começou com a tomada de posse da nova Administração nos EUA, que acabou por ser responsável por algumas medidas com impacto global.
Liberation Day - o dia em que Donald Trump anunciou tarifas sobre a grande maioria das importações para os EUA, com taxas base na casa dos 10% e com aumentos bem mais elevados para países “menos cooperantes”, como a China.
Quedas equiparáveis às do Covid - na sequência do Liberation Day, as bolsas caíram por todo o mundo, com algumas a registarem números não vistos desde o Covid. Entre fundos de pensões e hedge funds, as fontes variam, mas estima-se que os prejuízos superaram os $100 mil milhões.
Aumento do risco de recessão - o Liberation Day desencadeou a tão falada “guerra tarifária”, já que outros países não quiseram ficar a ver navios e também eles aumentaram as taxas sobre produtos americanos. A consequência imediata? Um abrandamento da economia mundial.
Novos máximos históricos - após todo este impacto e queda nos mercados accionistas (que durou perto de uma semana), seguiu-se uma nova corrida até máximos históricos, para algumas empresas e para os principais índices (S&P500, NASDAQ, STOXX, MSCI, entre outros).
A narrativa do ano - se o ponto anterior parecia positivo, vamos juntar-lhe uns grãos de sal. Esta corrida até novos máximos históricos não se deveu propriamente a uma economia saudável e crescente, mas sim graças a um conjunto de empresas - todas elas ligadas àquela que a revista Time considerou a “personalidade do ano” - a Inteligência Artificial. Foram as empresas ligadas a este sector que mais cresceram e puxaram para cima os principais índices. Se isto foi feito de forma sustentável? É uma pergunta pertinente, que tem gerado muita discussão e para a qual ainda não há resposta consensual.
A corrida ao Ouro (e metais preciosos) - mais uma coisa que podemos associar ao Liberation Day ou então ao facto de haver muita gente a desconfiar do estado da economia global. Só em 2025, Ouro, Prata, Platina e Paládio tiveram subidas recordes. O Ouro valorizou mais de 60%, Prata e Platina mais de 150% e o Paládio perto dos 100%. De referir que, nos últimos 50 anos, esta subida abrupta do Ouro e da Prata aconteceu apenas 2 vezes: 1979-80 e na ressaca da grande crise de 2008. Talvez esteja na hora de revisitar alguns livros de História e perceber se foram meras coincidências.
O Banco do Japão - os olhos dos mercados costumam estar essencialmente nos EUA, China e Europa, mas o Japão tem agitado as águas e 2025 deu seguimento a algo que já tinham iniciado em 2024: aumento das taxas de juro. Enquanto que os EUA e Europa têm estado a baixar, o Japão começou a fazer o inverso. Importa salientar que este aumento não foi por acaso: o Japão teve durante muitos anos taxas entre os 0-0,1%. Os aumentos que o Banco do Japão fez, tornou o iene mais atractivo e fez com que muitos investidores voltassem a investir no Japão, diminuindo por consequência, os investimentos que tinham noutros mercados. Se isto parece irrelevante, vejam o que aconteceu nos principais índices em Agosto de 2024, quando o Japão anunciou esta inversão de marcha nas suas taxas de juro.
O ponto de partida
Os pontos em cima marcaram, sem dúvida, o ano de 2025 e as repercussões ainda não terminaram, por isso podem ser entendidos como ponto de partida.
Importa esclarecer que o termo “ponto de partida”, não significa que devemos encarar os próximos meses como se fossem iguais a 2025.
Investir em metais preciosos agora, depois da subida vertiginosa em pouco tempo, seria uma decisão de alto risco.
Investir em empresas de I.A. agora, seria correr atrás de uma tendência que já deu vários sinais de exaustão.
Isto não significa que a I.A. ou os metais preciosos perderam relevância.
Estamos a falar do ponto de vista da mentalidade do investidor. E, os grandes investidores - aqueles que mexem os mercados - estão sempre à procura da próxima árvore com potencial para ter os melhores frutos. Eles não investem depois de já terem sido colhidos os melhores frutos.
Nós, pequenos investidores/as, o melhor que temos a fazer - como sempre - é manter-mo-nos atentos e informados.
Se isto parece uma opinião muito pessoal, aproveito para relembrar os “10 Mandamentos do Investidor Iniciante” - escritos com base nas boas práticas dos mercados.
Na secção final de hoje, dedicada aos apoiantes do Diário Cinzento, partilho aquilo a que vou prestar mais atenção nos próximos meses.


