Diário Cinzento

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ICO's - a versão cripto dos IPO's

Depois de termos falado de IPO's, hoje falamos do equivalente no mercado das criptomoedas - os ICO's e IDO's

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Jan 21, 2026
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Depois de termos falado de IPO’s, tínhamos de falar do equivalente no mercado das criptomoedas - ICO’s.

Como há sempre a tendência de comparar Acções e Criptomoedas, podemos dizer que os IPO’s são a versão “de fato e gravata” do mercado financeiro, enquanto que os ICO’s são a versão em hoodie, lançada às três da manhã com um site feito entre o Canva e o Wix.

Nos primeiros anos, os ICO’s pareceram algo bastante revolucionário.

Depois, tornaram-se sinónimo de promessas exageradas, projectos abandonados e investidores a aprender lições “valiosas” da forma mais cara possível.

Depois deste artigo vais ficar a perceber:

  • O que é um ICO;

  • Como funcionam;

  • Como é que atraíram tanto dinheiro;

  • 3 casos notáveis;

  • Porque é que hoje são olhados de lado;

Na secção final, dedicada aos apoiantes do DC, partilho a minha forma preferida de encarar estes ICO’s.


O que é um ICO e como funciona?

ICO significa Initial Coin Offering.

Traduzindo: é quando um projecto de criptomoedas vende tokens ao público para angariar dinheiro.

Na prática:

  • Um projecto cria um token;

  • Vende esse token a investidores iniciais;

  • Promete desenvolver uma plataforma, protocolo ou serviço no futuro;

Parece vagamente familiar? Não é por acaso.

Comparando com aquilo que já vimos sobre IPO’s:

  • IPO - compramos uma parte real de uma empresa;

  • ICO - compramos um token que pode vir a ter utilidade no futuro;

Num IPO

  • Há reguladores e regras que têm de ser seguidas;

  • Há relatórios financeiros;

  • Há responsabilidades legais;

Num ICO (especialmente nos primeiros anos):

  • Havia um PDF ou website bonito;

  • Um roadmap/plano ambicioso;

  • Muita fé;


Como é que os ICO’s atraíram tanto dinheiro?

Tendo em conta o descrito em cima e aquilo que já sabemos dos originais (os IPO’s), podemos resumir o sucesso dos primeiros ICO’s em 3 pontos:

1. Dinheiro fácil

Durante o boom cripto, havia muito capital à procura da “próxima Bitcoin”.

Nessa altura (2017-2018), um projecto estaria meio encaminhado para o sucesso se tivesse:

  • Blockchain no nome;

  • Um logótipo minimalista;

  • Palavras chave como “descentralização” e “revolução”;

2. Barreiras quase inexistentes

Criar um token era (e continua a ser) relativamente fácil.

Criar um negócio sustentável… nem tanto. Mas isso vinha depois. Supostamente.

3. FOMO

Fear Of Missing Out. O medo de ficar de fora fez maravilhas entre os investidores desejosos de encontrar a próxima Bitcoin. Ou horrores. Depende do ponto de vista.


Porque é que tantos ICO’s correram mal?

Depois do mencionado, a resposta é fácil:

  • Muitos projectos nunca entregaram o prometido;

  • Outros entregaram um produto sem market fit (falta de utilizadores);

  • Alguns desapareceram discretamente;

  • E outros... eram simples burlas;

Sem sarcasmos e falando objectivamente, as razões mais comuns passaram por:

  • Falta de produto real;

  • Equipas sem experiência - algumas até tinham bons programadores, boa capacidade técnica, mas uma total ausência de visão negócio, capacidades de gestão e marketing;

  • Ausência total de regulação sobre o lançamento de tokens;


3 casos notáveis

Um artigo destes não ficaria completo, se não mencionasse alguns exemplos.

Ethereum (2014) - o ICO que correu mesmo bem

O ICO da Ethereum é frequentemente citado como O exemplo de sucesso. A ideia era simples (e ambiciosa): criar uma blockchain que permitisse não só transferir valor, mas também executar contractos inteligentes - programas que correm automaticamente na blockchain.

Quem participou no ICO pagou cêntimos por um token que hoje vale cerca de $3000. Mas o mais importante não foi o preço: foi o facto da Ethereum ter um produto funcional, que acabou por se tornar a base do DeFi e de grande parte do ecossistema cripto actual.

A Ethereum foi um caso raro da combinação de ingredientes de sucesso essenciais: visão, execução e timing. Acontece, mas não muitas vezes.

EOS (2017-2018) - “muita parra, pouca uva”

O ICO da EOS ficou na história por outro motivo: arrecadou mais de 4 mil milhões de dólares. Ou biliões, se preferires.

A promessa era criar uma blockchain mais rápida e eficiente do que tudo o que existia. O dinheiro não faltou. O entusiasmo também não. O problema foi a execução. Apesar da tecnologia existir, a adopção ficou aquém das expectativas e o projecto perdeu relevância ao longo do tempo.

Pelo meio, houve também muita discussão sobre a falta de transparência na forma como o dinheiro angariado foi utilizado para o desenvolvimento/crescimento do projecto, por comparação com aquele que ficou no bolso dos fundadores.

Moral da história: angariar muito capital não garante o sucesso de um projecto.

Tezos (2017) - quando o maior risco não é técnico, mas humano

A Tezos prometia uma blockchain “auto-evolutiva”, capaz de se actualizar sem conflitos internos. Tecnicamente interessante, sem dúvida.

O ICO foi um sucesso financeiro, mas hoje em dia ainda é conhecido pelo que aconteceu depois: conflitos internos, disputas legais e atrasos. O projecto acabou por seguir em frente e continua a funcionar, mas com anos de desgaste e perda de confiança.

Um bom lembrete de que, mesmo em projectos tecnológicos, os maiores problemas costumam ser as pessoas e não o código.


ICO’s hoje em dia

Ainda existem, mas (curiosamente) mudaram de nome. E, o contexto também mudou.

Hoje em dia, fala-se mais de:

  • IDO’s (Initial Dex Offering)

  • IEO’s (Initial Exchange Offering)

  • TGE (Token Generation Event)

Apesar dos nomes e da apresentação ser diferente - referem-se todos ao lançamento de um token - mas, há algumas diferenças:

  • Em quem controla o processo;

  • Onde o token é vendido;

  • No grau de “organização” do processo;

Na sua essência, a lógica descrita em cima (dos ICO’s), mantém-se: recolher investimento (dinheiro), em troca de tokens, com promessa de entrega de um produto/serviço no futuro.

IDO’s - lançamento com um intermediário - uma plataforma descentralizada (DEX)

Surgiram para tentar corrigir algumas lacunas dos ICO’s. O token é lançado numa DEX, que estabelece regras e faz uma pré-selecção (supostamente) criteriosa.

Esta “pré-validação” oferece um pouco mais de estrutura ao lançamento, oferece (teoricamente) um lançamento mais democrático e liquidez quase imediata na hora do lançamento.

MAS - claro que há um “mas” - nada disto retira o risco. O projecto pode falhar na mesma e o entusiasmo pode continuar a ser confundido com qualidade e viabilidade.

TGE - apenas um termo técnico

Não é nada de novo, é simplesmente uma nomenclatura que passou a ser usada mais frequentemente.

TGE (Token Generation Event), refere-se apenas ao momento que um token é criado e distribuído. Isto tanto pode acontecer com ICO, um IDO, um airdrop, através de investidores privados ou até, tudo ao mesmo tempo.

A utilização deste termo, muitas vezes, é apenas para soar mais técnico e evitar palavras como ICO que já começam a ter uma conotação negativa.

Resumindo:

  • ICO - venda directa, pouco controlo, risco máximo.

  • IDO - venda via plataforma, alguma estrutura, risco elevado na mesma.

  • TGE - nome técnico para o nascimento de um token. Apenas isso.


O que devemos ter em conta antes de investir num ICO ou IDO

Se não quisermos voltar à idade da inocência de 2017-18, temos de encontrar respostas bem convincentes a estas a perguntas:

1. Que problema está o projecto a resolver?

Se não conseguimos responder com uma simples frase… bandeira amarela ou vermelha.

2. O token é mesmo necessário?

Já existem dezenas de milhares de tokens. O mercado precisa de mais um? Ou podia ser tudo feito sem token nenhum?

3. Quem está por trás?

Há pessoas reais ou estão todos a usar nomes artísticos e pseudónimos?

O histórico da equipa é verificável?

4. Estamos dispostos a perder tudo?

Já sabemos que criptos são investimentos de risco.

Investir em ICO’s, é investir numa cripto nova, sem provas dadas e apenas com uma série de promessas. Isto é elevar o risco ao nível máximo. Estamos dispostos a isso?


Conclusão

Os ICO’s foram inovadores, caóticos e altamente educativos (para quem sobreviveu).

Hoje em dia, ainda podem existir bons projectos, mas:

  • Não são para todos;

  • Exigem muito mais análise, experiência e conhecimento de mercado;

  • Fundadores carismáticos e apresentações excitantes já não são suficiente;

Se um projecto promete mudar o sistema financeiro global… mas não consegue explicar claramente como vai ganhar dinheiro… talvez não seja uma oportunidade única.

Na secção final, dedicada aos apoiantes do DC, partilho a minha forma preferida de encarar estes ICO’s…

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