ICO's - a versão cripto dos IPO's
Depois de termos falado de IPO's, hoje falamos do equivalente no mercado das criptomoedas - os ICO's e IDO's
Depois de termos falado de IPO’s, tínhamos de falar do equivalente no mercado das criptomoedas - ICO’s.
Como há sempre a tendência de comparar Acções e Criptomoedas, podemos dizer que os IPO’s são a versão “de fato e gravata” do mercado financeiro, enquanto que os ICO’s são a versão em hoodie, lançada às três da manhã com um site feito entre o Canva e o Wix.
Nos primeiros anos, os ICO’s pareceram algo bastante revolucionário.
Depois, tornaram-se sinónimo de promessas exageradas, projectos abandonados e investidores a aprender lições “valiosas” da forma mais cara possível.
Depois deste artigo vais ficar a perceber:
O que é um ICO;
Como funcionam;
Como é que atraíram tanto dinheiro;
3 casos notáveis;
Porque é que hoje são olhados de lado;
Na secção final, dedicada aos apoiantes do DC, partilho a minha forma preferida de encarar estes ICO’s.
O que é um ICO e como funciona?
ICO significa Initial Coin Offering.
Traduzindo: é quando um projecto de criptomoedas vende tokens ao público para angariar dinheiro.
Na prática:
Um projecto cria um token;
Vende esse token a investidores iniciais;
Promete desenvolver uma plataforma, protocolo ou serviço no futuro;
Parece vagamente familiar? Não é por acaso.
Comparando com aquilo que já vimos sobre IPO’s:
IPO - compramos uma parte real de uma empresa;
ICO - compramos um token que pode vir a ter utilidade no futuro;
Num IPO
Há reguladores e regras que têm de ser seguidas;
Há relatórios financeiros;
Há responsabilidades legais;
Num ICO (especialmente nos primeiros anos):
Havia um PDF ou website bonito;
Um roadmap/plano ambicioso;
Muita fé;
Como é que os ICO’s atraíram tanto dinheiro?
Tendo em conta o descrito em cima e aquilo que já sabemos dos originais (os IPO’s), podemos resumir o sucesso dos primeiros ICO’s em 3 pontos:
1. Dinheiro fácil
Durante o boom cripto, havia muito capital à procura da “próxima Bitcoin”.
Nessa altura (2017-2018), um projecto estaria meio encaminhado para o sucesso se tivesse:
Blockchain no nome;
Um logótipo minimalista;
Palavras chave como “descentralização” e “revolução”;
2. Barreiras quase inexistentes
Criar um token era (e continua a ser) relativamente fácil.
Criar um negócio sustentável… nem tanto. Mas isso vinha depois. Supostamente.
3. FOMO
Fear Of Missing Out. O medo de ficar de fora fez maravilhas entre os investidores desejosos de encontrar a próxima Bitcoin. Ou horrores. Depende do ponto de vista.
Porque é que tantos ICO’s correram mal?
Depois do mencionado, a resposta é fácil:
Muitos projectos nunca entregaram o prometido;
Outros entregaram um produto sem market fit (falta de utilizadores);
Alguns desapareceram discretamente;
E outros... eram simples burlas;
Sem sarcasmos e falando objectivamente, as razões mais comuns passaram por:
Falta de produto real;
Equipas sem experiência - algumas até tinham bons programadores, boa capacidade técnica, mas uma total ausência de visão negócio, capacidades de gestão e marketing;
Ausência total de regulação sobre o lançamento de tokens;
3 casos notáveis
Um artigo destes não ficaria completo, se não mencionasse alguns exemplos.
Ethereum (2014) - o ICO que correu mesmo bem
O ICO da Ethereum é frequentemente citado como O exemplo de sucesso. A ideia era simples (e ambiciosa): criar uma blockchain que permitisse não só transferir valor, mas também executar contractos inteligentes - programas que correm automaticamente na blockchain.
Quem participou no ICO pagou cêntimos por um token que hoje vale cerca de $3000. Mas o mais importante não foi o preço: foi o facto da Ethereum ter um produto funcional, que acabou por se tornar a base do DeFi e de grande parte do ecossistema cripto actual.
A Ethereum foi um caso raro da combinação de ingredientes de sucesso essenciais: visão, execução e timing. Acontece, mas não muitas vezes.
EOS (2017-2018) - “muita parra, pouca uva”
O ICO da EOS ficou na história por outro motivo: arrecadou mais de 4 mil milhões de dólares. Ou biliões, se preferires.
A promessa era criar uma blockchain mais rápida e eficiente do que tudo o que existia. O dinheiro não faltou. O entusiasmo também não. O problema foi a execução. Apesar da tecnologia existir, a adopção ficou aquém das expectativas e o projecto perdeu relevância ao longo do tempo.
Pelo meio, houve também muita discussão sobre a falta de transparência na forma como o dinheiro angariado foi utilizado para o desenvolvimento/crescimento do projecto, por comparação com aquele que ficou no bolso dos fundadores.
Moral da história: angariar muito capital não garante o sucesso de um projecto.
Tezos (2017) - quando o maior risco não é técnico, mas humano
A Tezos prometia uma blockchain “auto-evolutiva”, capaz de se actualizar sem conflitos internos. Tecnicamente interessante, sem dúvida.
O ICO foi um sucesso financeiro, mas hoje em dia ainda é conhecido pelo que aconteceu depois: conflitos internos, disputas legais e atrasos. O projecto acabou por seguir em frente e continua a funcionar, mas com anos de desgaste e perda de confiança.
Um bom lembrete de que, mesmo em projectos tecnológicos, os maiores problemas costumam ser as pessoas e não o código.
ICO’s hoje em dia
Ainda existem, mas (curiosamente) mudaram de nome. E, o contexto também mudou.
Hoje em dia, fala-se mais de:
IDO’s (Initial Dex Offering)
IEO’s (Initial Exchange Offering)
TGE (Token Generation Event)
Apesar dos nomes e da apresentação ser diferente - referem-se todos ao lançamento de um token - mas, há algumas diferenças:
Em quem controla o processo;
Onde o token é vendido;
No grau de “organização” do processo;
Na sua essência, a lógica descrita em cima (dos ICO’s), mantém-se: recolher investimento (dinheiro), em troca de tokens, com promessa de entrega de um produto/serviço no futuro.
IDO’s - lançamento com um intermediário - uma plataforma descentralizada (DEX)
Surgiram para tentar corrigir algumas lacunas dos ICO’s. O token é lançado numa DEX, que estabelece regras e faz uma pré-selecção (supostamente) criteriosa.
Esta “pré-validação” oferece um pouco mais de estrutura ao lançamento, oferece (teoricamente) um lançamento mais democrático e liquidez quase imediata na hora do lançamento.
MAS - claro que há um “mas” - nada disto retira o risco. O projecto pode falhar na mesma e o entusiasmo pode continuar a ser confundido com qualidade e viabilidade.
TGE - apenas um termo técnico
Não é nada de novo, é simplesmente uma nomenclatura que passou a ser usada mais frequentemente.
TGE (Token Generation Event), refere-se apenas ao momento que um token é criado e distribuído. Isto tanto pode acontecer com ICO, um IDO, um airdrop, através de investidores privados ou até, tudo ao mesmo tempo.
A utilização deste termo, muitas vezes, é apenas para soar mais técnico e evitar palavras como ICO que já começam a ter uma conotação negativa.
Resumindo:
ICO - venda directa, pouco controlo, risco máximo.
IDO - venda via plataforma, alguma estrutura, risco elevado na mesma.
TGE - nome técnico para o nascimento de um token. Apenas isso.
O que devemos ter em conta antes de investir num ICO ou IDO
Se não quisermos voltar à idade da inocência de 2017-18, temos de encontrar respostas bem convincentes a estas a perguntas:
1. Que problema está o projecto a resolver?
Se não conseguimos responder com uma simples frase… bandeira amarela ou vermelha.
2. O token é mesmo necessário?
Já existem dezenas de milhares de tokens. O mercado precisa de mais um? Ou podia ser tudo feito sem token nenhum?
3. Quem está por trás?
Há pessoas reais ou estão todos a usar nomes artísticos e pseudónimos?
O histórico da equipa é verificável?
4. Estamos dispostos a perder tudo?
Já sabemos que criptos são investimentos de risco.
Investir em ICO’s, é investir numa cripto nova, sem provas dadas e apenas com uma série de promessas. Isto é elevar o risco ao nível máximo. Estamos dispostos a isso?
Conclusão
Os ICO’s foram inovadores, caóticos e altamente educativos (para quem sobreviveu).
Hoje em dia, ainda podem existir bons projectos, mas:
Não são para todos;
Exigem muito mais análise, experiência e conhecimento de mercado;
Fundadores carismáticos e apresentações excitantes já não são suficiente;
Se um projecto promete mudar o sistema financeiro global… mas não consegue explicar claramente como vai ganhar dinheiro… talvez não seja uma oportunidade única.
Na secção final, dedicada aos apoiantes do DC, partilho a minha forma preferida de encarar estes ICO’s…


