Diário Cinzento

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Viver de Dividendos

Mito ou Realidade?

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Dec 10, 2025
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Hoje vamos olhar para uma das estratégias mais comuns - a de construir uma carteira de dividendos.

Esta estratégia, por vezes, é promovida por títulos clickbait e outras vezes, é criticada por não reflectir a realidade. Vamos olhar para dados e tirar as nossas próprias conclusões.

Neste artigo, vamos olhar para as carteiras/portfolios de dividendos e ver:

  • Vantagens;

  • Contas rápidas (e as menos rápidas que as redes sociais ignoram);

  • Contexto macro e sectorial;

  • Uma dica exclusiva para apoiantes do Diário Cinzento...

Como de costume, nada do que está neste Diário é uma recomendação de investimento. A ideia aqui, é oferecer-te food for thought, dados para te ajudar a reflectir melhor sobre os teus investimentos.


O que são dividendos?

São uma parte dos lucros da empresa, que esta decide distribuir por quem investe nela. São pagos com uma determinada regularidade, a cada 3 ou 12 meses - na maioria dos casos das empresas americanas ou europeias.

Existem algumas empresas consolidadas, que pagam há anos consecutivos dividendos aos seus accionistas. Esta consistência, levou à criação de dois termos bastante conhecidos neste meio:

  • Dividend Aristocrats - empresas que aumentam os seus dividendos há mais de 25 anos, consecutivamente;

  • Dividend Kings - empresas que aumentam os seus dividendos há mais de 50 anos, consecutivamente;


Vantagens

  • Com determinada regularidade recebemos uma % proporcional ao que investimos;

  • Isto tem um efeito psicológico positivo - uma recompensa pelo nosso investimento;

  • Se o mercado cair, os dividendos podem dar um certo conforto;

  • Dependendo de quanto tiver sido investido, os dividendos a receber podem até ser considerados uma forma de cashflow, de fluxo de caixa, para as despesas do dia a dia;

Mas, há sempre um mas (neste caso, mais do que um até)... há uns quantos pormenores a considerar e que podem fazer com que investir numa “estratégia de dividendos”, não seja uma escolha assim tão óbvia.


Contas rápidas...

Comecemos pelas quantias... vamos a uma contas:

  • 5000€ investidos numa empresa ou ETF que pague 4% ao ano = 200€ por ano em dividendos;

  • 10.000€ investidos numa empresa ou ETF que pague 4% ao ano = 400€ por ano em dividendos;

  • 25.000€ investidos numa empresa ou ETF que pague 4% ao ano = 1000€ por ano em dividendos;

  • 50.000€ investidos numa empresa ou ETF que pague 4% ao ano = 2000€ por ano em dividendos;

Sem esquecer que estamos a falar de valores brutos. Há imposto a pagar sobre isto 😉

Neste exercício considerei 4% - uma média bastante razoável entre as empresas sólidas que pagam dividendos. Há quem pague mais, há quem pague menos.

Haverá também quem diga que não tem 5000€ para investir e outros dirão que 5000€ nem é muito.

É impossível agradar a todos/as, por isso, peguem neste exercício e substituam pelos valores que vos fizerem mais sentido.

A ideia deste exercício é mostrar que:

  • Se pegarmos no total de dividendos a receber por ano e o dividirmos por 12 meses, vemos que só a partir dos 50.000€ é que começamos a ter uns trocos extra por mês (cerca de 166€ brutos por mês), fruto dos dividendos;

  • Em vez de nos contentarmos com 4%, poderíamos investir numa empresa ou ETF que pagasse um dividendo superior - o que implica outros riscos de que já falaremos;

  • Apesar das quantias serem sempre relativas, acho que podemos concordar que investir 50.000€ é um valor que está acima das possibilidades da maioria dos portugueses;

  • Mesmo que tenhamos 25k ou 50k para investir numa empresa ou ETF com bons dividendos, estaríamos a aumentar exponencialmente o risco dos nossos investimentos, já que estamos a falar de apenas 1 empresa ou ETF - lembram-se deste artigo?

Fora destas contas estão as pessoas que têm dezenas de milhares de euros em cada Acção/ETF do seu portfolio. Se estiver alguém a ler nesta situação, considerem apoiar este projecto, ok? 😉

Porquê 4% em vez de 6 ou 7%?

Sim, é relativamente fácil encontrar empresas que pagam dividendos na casa dos 6-7%, algumas até mais. Mas quão sustentável são estes pagamentos e como é que umas conseguem e a concorrência não?

  • A própria pergunta é já em si um sinal de alerta - podemos olhar para a média do sector em questão e ver se essa empresa está muito acima ou alinhada com a média. Se está muito acima, qual o motivo?

  • O histórico de dividendos - esse dividendo é pago de forma regular e consistente? E há quantos anos? Um dividendo alto que começou a ser pago há apenas 1 ano ou que tem variações grandes, por princípio, não faz grande sentido para uma “estratégia de dividendos”.

  • Como têm sido os resultados da empresa? Têm cumprido o expectável? Os lucros estão a aumentar? A dívida está controlada? Se a resposta a estas perguntas for “não” e os dividendos são altos, é mais um sinal de alerta.

Isto são métricas relativamente fáceis de observar, mesmo para quem não tenha muita experiência. A maioria das apps das corretoras, disponibiliza estes dados. São também fáceis de encontrar em sites como o Yahoo Finance ou o Simply Wall Street.

Quem quiser análises mais detalhadas, pode olhar também para os relatórios de contas destas empresas que pagam elevados dividendos e perceber de onde vem o dinheiro - do resultado das suas operações, do dinheiro em caixa, do sobre-endividamento ou de outro sítio?


Contas não tão rápidas...

Quem tem interesse nestes temas dos investimentos e utiliza redes sociais, provavelmente já viu posts com gráficos ou fórmulas que rapidamente nos ajudam a ver quanto precisamos de investir na empresa A para obter X de dividendos.

Por muito entertaining ou engraçados que sejam estes posts, eles podem ser muito ilusórios e induzir os mais desatentos em erro. Porque:

  • Não consideram a taxa de inflação dos próximos anos - logo, aplicar a fórmula ou contas que esses posts sugerem, só tem validade para o ano corrente - o que não faz qualquer sentido para uma estratégia de dividendos, cujos frutos são mais evidentes ao fim de vários anos.

  • Não consideram eventos Black Swan.

  • Não consideram as condicionantes sectoriais nem macro, de que falaremos a seguir.


A importância sectorial

Conforme já referido, olhar para o sector em que se insere a empresa ou ETF que estamos a considerar, é importante - cada um tem as suas especificidades.

Por exemplo, os REIT’s, devido à sua estrutura legal, têm de partilhar os seus lucros com os seus investidores, como tal, operam com um modelo ligeiramente diferente dos restantes sectores, sendo os dividendos, geralmente, mais elevados.

As empresas de serviços públicos também costumam pagar bons dividendos, porque são empresas com modelos operacionais relativamente estáveis e com contractos de longa duração. Neste caso, o conceito “bons dividendos” aplica-se mais à estabilidade no pagamentos dos mesmos e não tanto a um percentual elevado.

As empresas de bens consumo costumam estar também entre as que mantêm bons registos ao nível da estabilidade. Neste sector é costume encontrarem-se alguns dos dividend aristocrats. Os dividendos costumam ser baixos, mas a estabilidade nos pagamentos é um “conforto” a considerar.

As empresas ligadas ao sector energético também costumam pagar dividendos, no entanto, as variações dos preços de matérias primas como o gás natural ou o petróleo, afectam os resultados da empresa e os dividendos são frequentemente ajustados. Ou seja, este é um sector em que a média de dividendos pode parecer elevada, mas em que a consistência desse percentual não é habitual.

As empresas ligadas a sectores inovadores ou tecnologias de ponta, não costumam pagar dividendos ou pagam um valor pouco significativo, porque optam por usar uma boa parte do seu dinheiro na Investigação e Desenvolvimento (I&D) - aquilo que contribui para o seu crescimento. São empresas que, geralmente, acabam por se valorizar muito mais do que as dos outros sectores.

Este é um pormenor importante a considerar quando se opta por uma “estratégia de dividendos” - normalmente, são empresas cujo valor das acções vai demorar vários anos a ter uma valorização significativa, por oposição àquelas que investem mais em I&D.

A título de curiosidade, estas foram as médias de 2025 dos sectores com dividendos mais relevantes:


O contexto (situação macro)

Como de costume, temos de falar também do contexto na questão dos dividendos.

Se olharmos para a situação macro actual, constatamos uma clara instabilidade geopolítica marcada pela guerra tarifária e conflitos armados.

Os dividendos são uma vítima frequente deste contexto e 2025 trouxe alguns exemplos desses. Quando as empresas têm de apertar os cintos, os cortes nos dividendos costumam fazer parte dos planos e, em alguns casos, podem até ser suspensos.

Além disto, a situação macro pode verificar-se também através do risco cambial de que já falámos aqui. Isto é um aspecto que não deve ser menosprezado por quem investe em empresas cotadas noutra moeda que não a do seu país de origem.

Considerando que os EUA são a origem das dividend aristocrats e dividend kings, é importante falar disto porque, com excepção de alguns meses no final de 2022, o Dólar continua a desvalorizar em relação ao Euro. Isto significa que, quem tenha uma estratégia de dividendos composta por empresas americanas, deve contar sempre com o risco cambial.


Resumindo…

A ideia deste artigo não é demover ninguém de investir em empresas que pagam dividendos. Como referido no início, o objectivo é convidar a pensar e a considerar aspectos que, por vezes, são relegados para segundo plano.

E este é um bom exemplo, já que - como muitos influencers gostam de fazer - anunciar dividendos de 2 dígitos ou “ensinar a viver de rendimento passivo”, atrai mais visualizações, do que pensar sobre os pontos aqui mencionados e fazer contas.

Qualquer que seja a tua estratégia, este Diário não podia deixar de ter uma página dedicada aos pontos que devem ser analisados por quem queira implementar uma estratégia baseada em empresas que pagam dividendos.

Sim, é chato e aborrecido ter de pensar nisto tudo mas, se o dinheiro nos custa a ganhar, acho que merece um pouco mais de tempo e reflexão antes de o investirmos 😉

Antes de fecharmos, uma dica sobre carteiras de dividendos, exclusiva para apoiantes do Diário Cinzento...

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