Os Mercados e a Economia
Os Mercados que compõe a Economia global
Já todos ouvimos estas expressões ou outras parecidas:
“o dinheiro não dorme”;
“dinheiro parado estraga-se”;
“rotação de capital”;
Hoje vamos falar das bases que suportam estas expressões.
E, depois do artigo de 6ª feira, faz ainda mais sentido trazer aqui estas bases porque afinal, para onde vai o capital quando os mercados caem?
Há muita coisa para cobrir. Vou tentar simplificar e ser sucinto. O tema vai ficar dividido em 2 artigos para que ninguém morra de tédio.
O artigo de hoje pode não ser tão sexy (e não é), como analisarmos a empresa do momento ou a cripto que promete 100x, mas entender estas bases pode marcar a diferença nas escolhas que fazemos para as nossas carteiras.
Os mercados que compõe a Economia global
Não é segredo que vivemos numa economia global, por isso, vamos olhar para esta divisão genérica de uma perspectiva global.
Os principais mercados que influenciam a Economia são:
Mercado Monetário: que negocia instrumentos de curto prazo (depósitos interbancários, títulos muito curtos), usado sobretudo por bancos e bancos centrais para gerir liquidez e taxas de juro;
Mercado de crédito: onde são feitos os empréstimos e financiamentos a empresas e famílias (crédito pessoal, habitação, financiamento empresarial), geralmente de curto e médio prazo, intermediado por bancos e financeiras.
Mercado de capitais: que negocia instrumentos de médio e longo prazo, como Ações e Obrigações (títulos de dívida de empresas e governos); inclui mercado primário (emissões novas, IPO) e secundário (bolsa - compra e venda entre investidores).
Mercado cambial (FX): onde se compram e vendem moedas estrangeiras (Euro, Dólar, etc.) - essencial para o comércio internacional, turismo e investimento externo.
Mercado de derivados: contratos cujo valor deriva de outros activos (futuros, opções, swaps, etc.), usados para cobertura de risco (hedge) ou para especulação.
Mercado de commodities: negociação de bens físicos e matérias prima (petróleo, ouro, prata, café, cacau, etc.).
[Extra] Mercado de Criptomoedas - apesar de ser o mais recente e de muito discutida a sua validade, não podemos falar de rotação de capital nos mercados, sem considerar este sector. Este é o mercado voltado para a negociação de activos digitais, que transpôs parte daquilo que é feito nos mercados bolsistas e de derivados para a blockchain. Muitos adiantam que poderá substituir alguns “mercados tradicionais” como os bolsistas e os de derivados. Eu inclino-me para a tese de que alguns dos “tradicionais” não irão ser propriamente substituídos, mas sim migrados para a blockchain.
O que nos dizem estes mercados?
Já falámos aqui dos Ciclos de mercado mas, por vezes, passam-se meses até que a maioria das pessoas consiga entender em que fase do ciclo estamos.
Entender as características destes mercados, dá-nos mais algumas direcções.
Mercado monetário
Olhando para as diferentes taxas de juro (curto e longo prazo) e como se movem, historicamente, vemos que:
Estamos num período de alta, quando os juros descem ou existe uma expectativa clara de serem cortados - isto costuma ser entendido como um incentivo ao investimento, costumando levar a uma maior interesse em activos de risco.
Estamos num período de baixa, quando os juros sobem, quando os juros de curta duração são superiores aos de longa duração e quando surgem os discursos defensivos dos bancos centrais.
Mercado de crédito
Estamos num período de alta, quando os bancos aumentam os créditos e os spreads estão baixos ou estáveis - é uma sinal de que as instituições credoras confiam que esses empréstimos serão pagos.
Estamos num período de baixa, quando a situação se inverte - a concessão de crédito acontece com menor frequência, os critérios são mais exigentes e os spreads aumentam, bem como o risco de incumprimento.
Mercado de capitais (bolsas)
Os sinais de optimismo ou de stress, são mais facilmente observáveis nas bolsas:
Estamos num período de alta, quando os preços das Ações estão a subir impulsionados por lucros das empresas, previsões de crescimento destas e avaliações optimistas.
Estamos num período de baixa, quando os resultados das empresas começam a desiludir, quando as previsões de crescimento da actividade são revistas para baixo ou quando se percebe que as avaliações feitas anteriormente, talvez tenham sido demasiado optimistas.
Mercado cambial
Aqui, a distinção é um pouco menos clara porque, historicamente:
Estamos num período de alta, quando o Dólar perde valor em relação a moedas de outros países que estão a crescer mais. Geralmente, estamos a falar de economias com um nível de risco maior.
Nos períodos de baixa, é quando vemos as pessoas a voltarem para o Dólar ou outras moedas de refúgio, o que acontece em alturas de redução de risco ou de receio de choques económicos que possam afectar essas economias menos sólidas.
Dizia que aqui a distinção é menos clara porque, apesar do que disse ser verificável nas últimas décadas, nos anos mais recentes, temos assistido a vários países a assinarem acordos comerciais utilizando outras divisas que não o Dólar. Do lados dos investidores, os mais ousados preferem a Bitcoin como reserva de valor. Já os mais conservadores, continuam a preferir o Ouro.
Mercado de derivados
Estamos num período de alta, quando a volatilidade é relativamente normal ou até baixa. Sendo o mercado de derivados conhecido pelo seu alto nível de risco, em períodos de alta dos mercados, os investidores acabam por preferir outras opções. Seguindo esta lógica, sabemos que podemos estar perto do pico de um período de alta, quando a volatilidade dispara e o nível de alavancagem converge para o lado de uma euforia generalizada.
Nos períodos de baixa, verifica-se o inverso. No início do período de queda, a volatilidade é baixa e segue-se, normalmente, a um período de exagero que se esgotou.
Mercado de commodities
Entramos num período de alta, quando se começa a verificar uma subida nos metais e no sector energético - sinal de uma actividade económica mais forte, o que acontece em bull markets.
O período de baixa começa com a queda dos metais, nomeadamente, os industriais - que costua ser sinal de abrandamento económico.
Mercado de criptomoedas
Este mercado, como já referido noutras ocasiões, é muito sui generis. Por isso, escrevi este artigo sobre as particularidades dos seus ciclos de alta e de baixa.
Como usar estes dados
Os cenários descritos em cima, nem sempre se conjugam todos ao mesmo tempo - se assim fosse, haveria sempre uma concordância geral sobre a fase em que estamos.
Mas, mesmo quando só alguns deles se combinam em simultâneo, já nos dão sinais de alta probabilidade daquilo que se vai seguir.
Normalmente, estamos a entrar num período de alta, quando:
os juros estão estáveis ou em queda;
existe facilidade de acesso a crédito;
os lucros das empresas estão a aumentar e os preços das Ações a acompanharem;
o Dólar perde força para moedas de economias mais pequenas;
a volatilidade é normal, sem euforias;
as preços das commodities industriais estão estáveis;
Os períodos de baixa iniciam-se, normalmente, quando se combina o oposto de todos (ou da grande maioria destes factores).
Como referido, nem sempre acontece tudo ao mesmo tempo. É comum assistir-se ao efeito “bola de neve” ou “efeito dominó”. Primeiro cai uma peça, depois a seguinte e por aí fora…
Conclusão
Adivinhar o que os mercados vão fazer, passa muito por entender as subtilezas e os sinais que levam aos cenários genéricos descritos em cima.
Pode haver quem tenha sorte, mas há também quem “faça a sua sorte” passando dias a analisar e a estudar os mercados. Futuramente, hei-de falar de algumas dessas pessoas.
Para já, parabéns se leste tudo até aqui! Bem sei que este é dos temas mais cinzentos deste Diário. Mas, se colocares isto em prática, vais ver que valeu a pena.
Prometo que o próximo artigo será mais interessante 😉



