Hoje faço uma pausa no tema previsto para este mês — construção/gestão de portfolios — para falar de um tema que está na agenda desta semana e da próxima — as yields / taxas de juro.
O BCE reune amanhã 5ª feira. A Fed reune na próxima semana. Destas reuniões saem decisões que costumam influenciar os mercados e a vida de qualquer cidadão.
Já tinha mencionado a questão das yields/taxas de juro no artigo sobre Bonds (Obrigações), mas para não me alongar demasiado, acabei por não aprofundar aquilo que manda em tudo.
Se leres este artigo até ao fim, vais ficar a perceber:
Porque são, provavelmente, o número mais importante da economia
Porque importam tanto ao consumidor comum como a quem investe
Os diferentes tipos de yields que existem
Como impactam o valor dos activos onde investimos
Porque estão em todo o lado
A importância das yields/taxas de juro pode ser resumida por aquilo que Warren Buffett disse numa das reuniões anuais da Berkshire Hathaway:
“O valor de qualquer negócio, o valor de uma quinta, o valor de um edifício de apartamentos, o valor de qualquer activo económico é 100% sensível às taxas de juro.”
Numa analogia musical: as taxas de juro são o botão master do volume de uma mesa de som. Todos os outros números — preço das acções, preço das casas, preço do crédito — são apenas colunas ligadas ao sistema de som, a tocar ao ritmo que esse botão master permite.
O que é, afinal, uma yield?
Em termos simples, yield é o “retorno” (em português, o termo usado é mesmo o bom e velho “juro”). Mais concretamente, é o rendimento que recebemos por emprestarmos o nosso dinheiro a alguém, expresso em percentagem.
Voltando ao artigo sobre bonds: quando compramos uma obrigação, estamos a emprestar dinheiro a uma empresa ou a um governo. Eles pagam-nos juros por esse favor. A yield é precisamente essa taxa de juro — a “renda” que o nosso dinheiro cobra por estar a trabalhar para outra pessoa em vez de estar tranquilamente parado na nossa conta (ou a ser gasto em compras por impulso — afinal, somos todos humanos).
A ideia é sempre a mesma, seja numa obrigação do Tesouro alemão, num depósito a prazo do teu banco ou num empréstimo a um amigo: emprestámos dinheiro, esperamos recebê-lo de volta, e queremos ser compensados pelo tempo e pelo risco. Essa compensação é a yield.
Porque toda a gente devia prestar atenção a isto (mesmo quem não investe)
Aqui está mais uma coisa bastante importante, que ninguém nos explicou na escola e, provavelmente, nem na universidade: as yields não vivem isoladas no mundo dos investidores de fato e gravata. Elas influenciam praticamente todos os preços que pagamos no dia a dia.
Crédito à habitação — a taxa da prestação está agarrada, directa ou indirectamente, às taxas de juro de referência. Quando as yields sobem, o crédito fica mais caro. Tão simples quanto isto.
Cartões de crédito e crédito ao consumo — a mesma lógica do ponto anterior, geralmente, com juros ainda mais desconfortáveis.
Depósitos a prazo e certificados de aforro — aqui a subida das yields é uma boa notícia: o dinheiro que tivermos alocado a uma destas aplicações começa finalmente a fazer alguma coisa por nós.
Preços em geral — os bancos centrais usam as taxas de juro precisamente para controlar a inflação. Sobem as taxas para arrefecer a economia, descem para a aquecer.
Ou seja: mesmo que nunca tenhas comprado uma acção ou uma obrigação na vida, as yields já mexeram no teu bolso. Só não te mandaram um mail a avisar.
E porque importam tanto a quem investe
Para quem investe, as yields são A unidade de medida com a qual tudo o resto se compara.
Se um depósito a prazo, sem qualquer risco, nos oferece 3%, um investimento com risco tem de oferecer mais do que isso para fazer sentido — senão, para quê arriscar?
É por isso que, quando as yields sobem, o dinheiro tende a fugir de activos mais arriscados (como acções) para activos mais seguros e agora mais bem pagos (como obrigações ou depósitos). E quando as yields descem, acontece o contrário: o dinheiro sai à procura de melhores resultados.
Este movimento de vaivém é, em grande parte, o que faz os mercados subir e descer — muito mais do que a maior parte das notícias dramáticas que vemos por aí.
Se costumas acompanhar as minhas stories no Instagram, agora já percebes porque as taxas de juro são presença habitual nas notícias que vou partilhando.
Os diferentes tipos de yields
Nem todas as yields são iguais. Estas são as mais comuns:
Yield nominal (ou cupão) — a taxa de juro fixa que uma obrigação paga sobre o seu valor original. Se compraste uma obrigação de 1.000€ com cupão de 4%, recebes 40€ por ano. Ponto final, sem surpresas.
Yield corrente — o cupão anual dividido pelo preço actual da obrigação (que pode já não ser o preço original). Como o preço das obrigações flutua no mercado, esta yield ajusta-se consoante a procura — mais ou menos pessoas a quererem comprar aquela obrigação.
Yield to maturity (YTM) — a mãe de todas as yields. É o retorno total que vais ter se guardares a obrigação até ao vencimento, incluindo cupões e a diferença entre o preço que pagaste e o valor que vais receber no fim. É aquela para a qual os profissionais olham.
Dividend yield — a mais conhecida por quem investe em acções. São o dividendo anual dividido pelo preço da acção. Ajuda a perceber quanto “juro” uma empresa paga a quem quer ser seu accionista, sem contar com a valorização do preço da acção.
Taxas de referência dos bancos centrais — a taxa da BCE ou da Fed. Não são bem “yields“ no sentido tradicional, mas são a base sobre a qual quase todas as outras taxas são construídas. Quando estas mexem, tudo o resto vai atrás.
Como as yields impactam o valor dos activos
Aqui voltamos à citação inicial do Buffett, e a razão pela qual ele não estava a exagerar.
Qualquer activo — uma acção, um imóvel, uma obrigação, um negócio inteiro — vale, em teoria, a soma de todo o dinheiro que vai gerar no futuro, trazido para o valor de hoje.
É aqui que as yields entram como o vilão (ou o herói, depende do dia) — quanto mais alta for a taxa de juro usada para “descontar” esse dinheiro futuro, menos vale hoje.
Na prática, isto traduz-se assim:
Obrigações — sobem as yields, desce o preço das obrigações já existentes (porque ninguém quer pagar um preço alto por um cupão antigo e agora menos competitivo). É uma relação inversa, quase matemática.
Acções — empresas que só vão dar lucro daqui a uns anos (as tais empresas de crescimento, cheias de promessas futuras) sofrem mais com yields altas, porque esses lucros futuros valem menos em dinheiro de hoje. Empresas mais maduras e lucrativas costumam aguentar melhor a tempestade.
Imobiliário — o crédito fica mais caro, menos gente consegue ou quer comprar casa a esses preços, e a avaliação dos imóveis tende a ajustar-se. É basicamente o mesmo princípio do Buffett, só que com tijolo em vez de acções.
Resumindo: podemos ver as yields são a taxa de câmbio entre “dinheiro no futuro” e “dinheiro de hoje”. Quando essa taxa muda, o valor de praticamente tudo muda com ela — só que a maior parte das pessoas só repara quando chega o extracto da conta ou quando olha para a prestação da casa.
Outros aspectos a ter em conta
Há ainda outros termos/expressões que se ouvem frequentemente e que estão directamente ligadas a tudo isto:
A curva de yields — é o gráfico que mostra as yields de obrigações do mesmo emissor (normalmente um governo) para diferentes prazos. Normalmente, prazos mais longos pagam mais (faz sentido: emprestar dinheiro por 30 anos merece mais compensação do que por 3 meses).
Quando isto se inverte — prazos curtos a pagar mais do que os longos — os economistas ficam nervosos, porque historicamente costuma ser um sinal de que aí vem recessão. Quando vires um gráfico como o de baixo — não é garantido que estejamos em recessão, mas é motivo para cautelas redobradas:
Yield vs. risco — uma yield muito mais alta do que a média não é sorte, pode bem ser um aviso. O mercado só paga mais a quem está disposto a correr mais risco (de a empresa ou o país não conseguir pagar, por exemplo).
Inflação — a yield que interessa mesmo é a yield “real”, ou seja, depois de descontada a inflação. Um depósito a prazo que oferece 5% com uma inflação de 6% significa que, na prática, estamos a perder dinheiro — só que devagarinho, para não doer tanto.
Resumindo
As yields não são só um número que aparece nas notícias para encher tempo de antena. São, como diria Buffett, o botão que ajusta o valor de quase tudo à nossa volta — deste as prestações das casas ao preço da nossas acções favoritas.
Não precisamos de nos tornar economistas, mas perceber esta lógica ajuda-nos a entender porque é que, de repente, tudo parece mais caro — ou mais barato — sem que, aparentemente, ninguém tenha mexido em nada.
Guarda este artigo. Lê as vezes que precisares.
E fica a promessa, o próximo artigo vai ter menos matemática. Ou talvez não... 😉
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NOTA: Como de costume, nada do que aqui foi dito é recomendação de investimento. Este é um artigo meramente informativo/educacional.




