USDT x USDC: o que precisas de saber
As Stablecoins que lideram o mercado e que (supostamente) nunca perdem valor
Para fechar o (actual) top 10 das maiores criptomoedas por marketcap, falta falar da USDT e da USDC - as stablecoins de referência.
Além das dúvidas iniciais sobre stablecoins - já esclarecidas neste artigo - há também uma outra pergunta constantemente repetida por quem acabou de chegar a este sector:
“Se o Bitcoin pode valer 100 mil dólares num dia e 50 mil no seguinte, como é que alguém usa isto para pagar coisas no dia a dia?”
É uma boa pergunta e a resposta são precisamente as stablecoins.
Já sabemos que são criptomoedas com um valor “estável”. Cada unidade vale sempre um dólar. Não vai a 2 dólares quando o mercado está eufórico, nem cai para 0,50 quando está em pânico. É apenas... um dólar digital.
As duas maiores do mercado são a USDT (criada pela Tether) e a USDC (criada pela Circle).
Juntas, representam mais de 85% do mercado de stablecoins e movem volumes que deixam muitos bancos tradicionais com inveja.
A história de cada uma delas é bem diferente e vale a pena conhecer ambas antes de decidir qual usar. É isso que vais ficar a saber no final do artigo de hoje.
USDT - a veterana com um passado complicado
A USDT foi lançada em 2014, com o objectivo de criar um activo digital indexado ao dólar americano, trazendo a estabilidade das moedas tradicionais ao mundo rápido e volátil das criptomoedas.
O projecto cresceu rapidamente. A empresa por trás da USDT é a Tether, sediada nas Ilhas Virgens Britânicas - um pormenor importante ao qual já voltaremos.
Para que serve no dia a dia
Na prática, a USDT serve para:
Guardar valor sem sair do ecossistema cripto - quando um investidor vende alguma cripto e não quer converter tudo para euros, converte para USDT. É o equivalente a “estacionar” o dinheiro.
Transferências internacionais baratas e rápidas - enviar USDT de Lisboa para São Paulo (ou qualquer outro ponto do planeta) tem um custo de fracções de cêntimos e chega em segundos, dependendo da rede usada.
Pagamentos no mundo cripto - a maioria das plataformas de DeFi e corretoras nativas de cripto usam USDT como par de negociação principal.
Acesso ao dólar em países com moedas instáveis - na Argentina, na Turquia, no Líbano, entre outros, o USDT é frequentemente usado como alternativa ao dólar físico, que é difícil de obter.
Como funciona a USDT
Em teoria, o mecanismo é simples: por cada USDT emitido, a Tether garante ter um dólar (ou equivalente) em reservas. Quando alguém compra 1.000 USDT, a Tether guarda 1.000 dólares. Quando alguém resgata, a Tether destrói os tokens e devolve o dinheiro.
A USDT não está confinada a uma única blockchain - funciona na Ethereum, Tron, Solana e muitas outras. Esta versatilidade ajuda a explicar porque é a stablecoin mais usada numa vasta gama de plataformas e aplicações em todo o ecossistema cripto.
As polémicas com a USDT
A questão das reservas
Desde o início que a Tether prometeu que o USDT estava 100% garantido por dólares em conta. Em 2019, descobriu-se que não era bem assim.
O Procurador-Geral de Nova Iorque acusou a Tether e a sua empresa irmã Bitfinex de usar as reservas para encobrir uma perda de 850 milhões de dólares. A Tether acabou por resolver o caso pagando uma multa de 18,5 milhões de dólares em 2021.
Nesse mesmo ano, a CFTC (regulador de derivados dos EUA) aplicou uma multa adicional de 41 milhões de dólares por ter induzido os utilizadores em erro sobre as suas reservas. Uma investigação revelou que, num determinado período, a Tether tinha apenas 27,6% do valor do USDT em circulação em reservas.
Depois de milhões pagos em multas, a Tether mudou finalmente de política. Hoje publica relatórios trimestrais sobre as suas reservas e afirma ter um excedente de activos.
A sua posição em obrigações do Tesouro americano atingiu os 127 mil milhões de dólares em meados de 2025, tornando a Tether num dos maiores detentores de dívida pública americana a nível global.
O pormenor a destacar destes relatórios, é que ainda não estão sujeitos a auditorias independentes e completas...
A questão da centralização
Há uma grande ironia em usar uma stablecoin “descentralizada” quando a empresa emissora pode congelar os teus fundos a qualquer momento.
Sim, é verdade, a Tether pode congelar USDT’s.
Em 2025, a Tether congelou 1,26 mil milhões de dólares em 4.163 endereços únicos, ligados a fraude, evasão de sanções e burlas. Ao ritmo actual, 2026 pode superar esses totais.
Casos concretos:
Em Abril de 2026, a Tether congelou 344 milhões de dólares em USDT em dois endereços na rede Tron, ligados a suspeitas de evasão de sanções envolvendo o Irão.
Em Novembro de 2023, congelou cerca de 225 milhões de dólares em USDT ligados a redes de tráfico humano no Sudeste Asiático.
Do ponto de vista moral, difícil de criticar. Afinal, estamos a falar de casos de fraude e de burlas.
Do ponto de vista filosófico cripto - onde “nem o banco te pode bloquear o dinheiro” era o argumento distintivo - é uma contradição que vale a pena ter em conta.
A questão europeia
Com a entrada em vigor do regulamento MiCA na Europa, surgiram os problemas para a USDT: várias corretoras europeias removeram o USDT das suas plataformas, para se manterem e conformidade com as normas europeias e garantirem as licenças de operação.
Relembro também o facto da sede da Tether ser num paraíso fiscal (Ilhas Virgens Britânicas), algo que também não combina com as regras controladoras da U.E..
Com isto, quem ganhou foi a USDC, precisamente porque já estava em conformidade com a regulação europeia - já lá vamos.
A USDT em números (2026)
Market cap: ~181-189 mil milhões de dólares (a maior stablecoin do mundo)
Volume mensal: média de 703 mil milhões de dólares mensais em 2025, com pico de 1 bilião em Junho
Redes suportadas: mais de 14, incluindo as principais: Ethereum, Tron, Solana.
Lucro da Tether em 2024: 13 mil milhões de dólares - a maioria proveniente de juros das reservas em obrigações do Tesouro americano.
USDC - a aluna bem comportada
A USDC foi lançada em 2018 pela empresa americana Circle.
Desde o início, a Circle posicionou-se de forma deliberadamente diferente da Tether: em vez de crescer rapidamente com mínima transparência, optou por construir relações com reguladores, bancos e instituições financeiras tradicionais.
A USDC era gerida pelo Centre Consortium, que incluía a Circle e a Coinbase - o que desde cedo deu ao token credibilidade e distribuição. Em 2023, a Circle absorveu o consórcio e ficou com controlo total.
Em Junho de 2025, a Circle foi para bolsa - o IPO levantou 1 bilião de dólares a 31 dólares por acção, mas o preço explodiu para 107 dólares em poucos dias, num sinal claro do apetite de Wall Street por exposição regulamentada ao mundo cripto.
Para que serve no dia a dia
A USDC serve precisamente para os mesmos propósitos básicos que a USDT - guardar valor, transferir dinheiro internacionalmente, operar em DeFi.
A grande diferença está no perfil de utilizador.
A USDC é a stablecoin preferida de:
Instituições financeiras e empresas - bancos, fintechs e gestoras de activos que precisam de conformidade regulatória antes de qualquer outra coisa.
Utilizadores europeus - desde a implementação do MiCA, a USDC é o stablecoin mais compatível com a regulação europeia.
Aplicações DeFi institucionais - plataformas de empréstimo e gestão de activos que precisam de transparência máxima nas reservas.
Pagamentos via Visa e Mastercard - a USDC ganhou integrações com a Visa, Mastercard, Stripe e outras redes de pagamento que permitem liquidações on-chain e pagamentos a comerciantes.
Como funciona a USDC
O mecanismo é o mesmo da USDT - cada USDC emitido corresponde a um dólar em reservas. A diferença está em como essas reservas são geridas e como essa informação é comunicada ao público.
A Circle publica as participações do fundo de reserva ao nível de cada título individualmente - uma raridade no mundo das stablecoins. A maioria dos emissores publica apenas agregados por categoria. Esta granularidade permite que qualquer pessoa verifique o perfil de maturidade real das obrigações do Tesouro detidas.
As reservas estão depositadas na BNY Mellon e são geridas pela BlackRock - nomes de respeito no sector tradicional e que oferecem confiança a qualquer director financeiro.
A Circle realiza auditorias mensais de terceiros com empresas como a Deloitte e a Grant Thornton, garantindo 100% de colateralização com Títulos do Tesouro americano de curto prazo e dinheiro em instituições regulamentadas.
Os problemas da USDC
A Circle esforça-se por ser a opção séria, mas também tem manchas no currículo.
O colapso do Silicon Valley Bank - Março de 2023
Este foi o maior susto da USDC até à data - e aconteceu porque a Circle fez exactamente o que se supõe que deve ser feito: guardou as reservas num banco regulamentado.
O problema: esse banco era o Silicon Valley Bank.
Quando o SVB entrou em colapso, a USDC perdeu a sua paridade com o dólar quase imediatamente. No ponto mais baixo, a USDC chegou a ser transaccionado a 0,87 dólares - 13% abaixo do valor suposto.
A Circle tinha 3,3 mil milhões de dólares bloqueados no SVB - cerca de 8% das reservas totais.
O pânico instalou-se. Foram queimados 2,34 mil milhões de USDC em poucas horas, com investidores a resgatar os seus tokens com pressa. A paridade só foi restaurada quando o governo americano garantiu todos os depósitos no SVB, no fim de semana seguinte.
A Circle saiu do episódio sem perdas efectivas para os utilizadores, mas com uma lição clara: guardar reservas em bancos regulamentados protege contra muita coisa, mas não contra o colapso do próprio banco.
A dependência do sistema bancário tradicional
Novamente a grande ironia: a USDC foi desenhada para ser a versão mais segura e transparente de uma stablecoin - e o seu maior susto veio de um banco falido, não de qualquer problema interno.
É a prova de que, por muito bem desenhado que seja uma stablecoin, a sua segurança está parcialmente dependente do sistema financeiro que supostamente complementa.
A queda do market cap em 2022-2023
Entre 2022 e 2023, o market cap da USDC caiu quase 50% - não porque o preço tenha caído (continuou a valer 1 dólar), mas porque muitos investidores optaram por alternativas como a USDT. Parte desta saída foi directamente influenciada pelo episódio do SVB.
A USDC em números (2026)
Market cap: ~70-75 mil milhões de dólares
Crescimento em 2025: mais de 72%
Auditorias: mensalmente pela Deloitte
Conformidade regulatória: MiCA (Europa), GENIUS Act (EUA), NY DFS BitLicense
Gestão de reservas: BlackRock + BNY Mellon
USDT e USDC: como estão a ser usadas pelas grandes instituições
Ambas as stablecoins saíram do nicho cripto e entraram no sistema financeiro convencional, mas por portas diferentes.
USDT domina nos mercados emergentes, nas exchanges de criptomoedas e nas transações informais. É favorecida pela sua liquidez: os volumes diários de negociação da USDT flutuaram entre 40 e 200 mil milhões de dólares em 2025. Qualquer trader ou investidor que precise de mover grandes volumes, usa USDT porque há sempre contraparte disponível.
USDC domina no segmento institucional regulamentado. A sua presença no DeFi institucional torna-a mais usada por investidores institucionais, projectos de tokenização e tesourarias corporativas.
Alguns casos mais conhecidos de adopção institucional:
a Visa integrou a USDC para liquidação de transacções na rede Ethereum, permitindo que parceiros paguem obrigações em USDC em vez de transferências bancárias tradicionais.
a Stripe reactivou pagamentos em cripto usando USDC, permitindo que comerciantes recebam pagamentos em USDC e convertam automaticamente para moeda local.
a BlackRock gere o fundo de reserva da USDC - o maior gestor de activos do mundo é também o guardião de uma stablecoin.
USDT x USDC: qual é a diferença que importa?
USDT e USDC fazem a mesma coisa - manter o valor de 1 dólar. As diferenças estão:
em como o fazem,
para quem foram desenhados,
o que acontece quando as coisas correm mal.
A USDT é a stablecoin mais líquida do mundo, com raízes no mercado cripto desde 2014.
É prática, está em todo o lado e é especialmente útil em países onde o acesso ao dólar é difícil. O lado negro: a transparência das reservas ainda deixa dúvidas, a empresa está sediada fora dos EUA e a Europa está a restringir a sua circulação.
A USDC é a stablecoin mais transparente e regulamentada do mercado. É a opção preferida de instituições financeiras, bancos e empresas que precisam de conformidade regulatória. O lado preocupante: quando o SVB faliu, percebemos que “guardado num banco regulamentado” não é sinónimo de “impossível de perder”.
Nenhuma das duas é perfeita. Mas juntas, revelam algo importante sobre o estado das finanças digitais: as “moedas estáveis” já existem em formato digital e têm utilidade comprovada - o que ainda está em aberto é quem as controla e sob que regras.
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NOTA: Como de costume, nada do que aqui foi dito é recomendação de investimento. Este é um artigo meramente informativo/educacional. Faz a tua pesquisa antes de qualquer investimento.



