Ripple: a blockchain de fato e gravata
Da ideia de melhorar o sistema bancário a um processo gigantesco
Nos artigos anteriores sobre criptomoedas, já falámos de projectos que querem descentralizar tudo, de blockchains que funcionam como computadores globais e de redes que movem stablecoins de um lado para o outro.
A Ripple é um caso diferente. Não foi criada para destronar o sistema financeiro, mas sim para trabalhar com ele.
Só isto, já é suficientemente controverso no mundo das criptos para garantir anos de polémicas.
O que é a Ripple
A Ripple é uma empresa americana - sim, uma empresa a sério, com escritórios e tudo - fundada em 2012.
O objectivo era simples de explicar mas difícil de resolver: tornar as transferências internacionais de dinheiro mais rápidas, baratas e menos absurdas do que ainda continuam a ser em 2026.
Caso clássico: quando um português envia dinheiro para o Brasil através de um banco tradicional, a transacção pode demorar entre 2 a 5 dias úteis e acumular taxas ao longo do caminho. O dinheiro passa por vários bancos intermediários - os chamados correspondent banks - com cada um a cobrar a sua comissão, como portagens numa auto-estrada.
A Ripple quis eliminar essas portagens.
Para isso, criou a sua própria rede de pagamentos - o RippleNet - e o seu próprio token - o $XRP.
O que quis resolver a Ripple
O sistema bancário internacional tem um problema que toda a gente ignora até precisar de o usar: é lento, opaco e caro.
A SWIFT, que é a rede usada pelos bancos para comunicar entre si, foi criada em 1973. Mais de cinquenta anos depois, continua a ser a espinha dorsal das transferências internacionais. É como se ainda usássemos um fax para enviar documentos importantes - tecnicamente funciona, mas há muito tempo que surgiram soluções melhores.
A Ripple identificou três problemas concretos, de que já falámos noutros artigos:
Velocidade - as transferências demoram dias quando podiam demorar segundos.
Custo - as taxas dos bancos intermediários encarecem os envios, especialmente para valores mais pequenos.
Liquidez - os bancos precisam de manter reservas em moeda local em cada país onde operam, o que imobiliza capital desnecessariamente.
A solução proposta pela Ripple foi usar o $XRP como “ponte” entre moedas.
Em vez de o banco A precisar de ter euros e dólares e reais e ienes em reserva, pode usar $XRP como moeda intermediária para converter tudo em tempo real.
É um pouco como ter um tradutor universal entre idiomas financeiros.
Para que foi criado o $XRP
O $XRP é o token nativo da rede da Ripple.
Ao contrário do Bitcoin, que é minado (produzido progressivamente por computadores a resolver problemas matemáticos), o XRP foi criado todo de uma vez: 100 mil milhões de tokens, criados no momento do lançamento.
Desses 100 mil milhões, uma boa parte ficou na posse da própria Ripple (a empresa), o que é uma das razões pelas quais muita gente no mundo das cripto torce o nariz - mas já lá vamos.
O $XRP serve para:
garantir liquidez em tempo real - servir de ponte entre duas moedas diferentes numa transacção internacional, eliminando a necessidade de reservas pré-financiadas.
pagar as taxas da rede - tal como nas outras blockchains, cada transacção na rede XRP Ledger tem uma taxa mínima, paga em $XRP. São valores ínfimos - fracções de cêntimo - mas existem.
velocidade de liquidação - uma transacção na rede XRP Ledger confirma-se em 3 a 5 segundos. No sistema bancário tradicional, pode demorar dias.
Como funciona
A rede da Ripple chama-se XRP Ledger (XRPL) e funciona de forma diferente da maioria das blockchains.
Em vez de usar Proof of Work (como o Bitcoin) ou Proof of Stake (como a Ethereum ou Solana), o XRPL usa um mecanismo chamado Federated Consensus.
Em linguagem não técnica: existe um conjunto de validadores de confiança - bancos, empresas, universidades - que concordam entre si sobre o estado correcto da rede. Quando a maioria concorda, a transacção é confirmada. Sem mineradores, sem grandes consumos de energia, sem esperas.
O produto principal da Ripple para as instituições financeiras é o On-Demand Liquidity (ODL) - um serviço que usa o $XRP como moeda de transição para enviar dinheiro de um país para outro quase instantaneamente.
O processo é simples:
O banco emissor converte a moeda local em $XRP.
O $XRP é transferido para o banco receptor em segundos.
O banco receptor converte o $XRP na moeda local de destino.
O utilizador final nem sabe que o XRP esteve lá. É invisível, como deve ser.
A teoria é bonita, mas quem está realmente a usar?
A Ripple tem efectivamente clientes reais. Mas - já sabias que vinha aí um mas - nem tudo o que aparece nos comunicados de imprensa significa o que parece.
Os números
A RippleNet fala de mais de 300 instituições financeiras em mais de 55 países.
Cerca de 40% destas instituições usa o XRP activamente através do ODL, em vez de apenas a infraestrutura de mensagens. O resto usa a rede para comunicar - mas não necessariamente o XRP para liquidar.
Esta distinção é fundamental e muitos títulos de imprensa ignoram-na convenientemente.
Alguns exemplos onde o XRP já funciona em produção, não apenas em pilotos:
SBI Holdings (Japão) - através da sua joint venture SBI Ripple Asia, a plataforma SBI Remit usa o ODL para processar transferências internacionais quase em tempo real, principalmente nos corredores Japão-Filipinas e Japão-Vietname. Para os trabalhadores filipinos no Japão que enviam dinheiro para casa, isto é directamente mensurável na carteira.
Santander - foi um dos primeiros grandes bancos a levar a tecnologia da Ripple directamente aos seus clientes, através do serviço One Pay FX, que usa a RippleNet para transferências internacionais mais rápidas e transparentes.
Intermex e Azimo - a Intermex, empresa americana de remessas, usa o ODL da Ripple para transacções com o México, reduzindo custos e os tempos de liquidação para quase instantâneo. A Azimo, serviço britânico de remessas, adoptou o ODL para acelerar transferências para as Filipinas.
Zand Bank e Mamo (UAE) - estão activos na rede Ripple Payments desde 2025, usando XRP e RLUSD para liquidações transfronteiriças consoante o corredor. O Médio Oriente é um dos mercados mais activos da Ripple, pela quantidade de trabalhadores expatriados que enviam remessas para os países de origem.
BBVA e DZ Bank (Europa) - o BBVA usa o Ripple Custody para serviços de activos digitais para clientes de retalho no âmbito do regulamento MiCA da União Europeia, enquanto o DZ Bank alemão usa o mesmo serviço para a liquidação de obrigações tokenizadas.
Os corredores que mais crescem
A Ripple revelou no início de 2026 que o volume da RippleNet cruzou uma taxa anualizada de 80 mil milhões de dólares, com a maior concentração em três corredores: USD→PHP (dólares para pesos filipinos), USD→MXN (dólares para pesos mexicanos) e AED→INR (dirhams dos Emirados para rupias indianas).
Não é por acaso: são exactamente os corredores onde o sistema bancário tradicional é mais caro e mais lento - e onde as famílias sentem mais a diferença.
O elefante na sala
Há um pormenor que tem de ser referido: muitas das 300 instituições usam apenas a camada de infraestrutura da RippleNet, tratando a Ripple como um fornecedor de pagamentos tradicional em vez de usar o XRP para liquidação. Mesmo nos corredores onde o ODL funciona, o XRP permanece no sistema apenas alguns segundos antes de ser convertido na moeda de destino.
O que significa que a adopção da RippleNet e a adopção do XRP não são a mesma coisa - e é importante não confundir as duas quando se está a avaliar o projecto.
As polémicas da Ripple e do $XRP
Isto não seria um artigo sobre criptomoedas se não mencionasse algumas polémicas. E a Ripple também as tem.
A questão da centralização
Desde o início que o $XRP levantou sobrancelhas: a Ripple (a empresa) controla uma fatia enorme do total de tokens. Durante anos, foi acusada de vender $XRP no mercado para financiar as suas operações, o que criava pressão de venda constante sobre o preço.
A Ripple respondeu bloqueando grande parte das suas reservas em escrow - contas que vão libertando tokens automaticamente ao longo do tempo - mas o argumento da centralização nunca desapareceu completamente.
O processo da SEC
Esta foi a polémica mais ruidosa.
Em Dezembro de 2020, a SEC (o regulador de valores mobiliários dos EUA) processou a Ripple, alegando que o $XRP era um security - ou seja, um valor mobiliário - e que tinha sido vendido ilegalmente ao público sem o registo adequado.
O processo arrastou-se por anos e abalou o preço do XRP. Várias corretoras americanas suspenderam as negociações do token para não se meterem em sarilhos.
Em Julho de 2023, chegou uma sentença parcial que foi celebrada como uma vitória pela Ripple: o tribunal decidiu que as vendas de $XRP ao público em geral não constituíam a venda de valores mobiliários. As vendas institucionais, essas sim, foram consideradas problemáticas.
O processo acabou por ser encerrado em 2024 com um acordo, e a Ripple pagou uma multa de cerca de 125 milhões de dólares - muito menos do que os mil milhões que a SEC pedia inicialmente.
Ficou a sensação de que a Ripple ganhou mais do que perdeu, embora o processo tenha custado tempo, uns bons milhões e muitas dores de cabeça.
Não é bem descentralizada
O XRP Ledger tem um número relativamente pequeno de validadores, e a Ripple tem influência significativa sobre a lista dos validadores considerados “de confiança”. Para os entusiastas da descentralização pura, isto é uma blasfémia.
A Ripple reconhece que o sistema é mais centralizado do que o Bitcoin, mas argumenta que isso é uma característica do sistema e não uma falha - supostamente, é isto que permite a velocidade e a eficiência que os bancos precisam.
A utilidade no dia a dia
Chegamos ao ponto que interessa à maioria das pessoas... o $XRP não foi concebido para o utilizador comum ir às compras com ele.
Foi desenhado para bancos e instituições financeiras moverem grandes volumes de dinheiro entre países.
Dito isto, há casos de uso reais para pessoas normais:
Transferências internacionais - algumas plataformas já usam a rede XRP Ledger para enviar remessas internacionais de forma mais barata. Se tens família no estrangeiro ou recebes pagamentos de outros países, plataformas que usam o ODL da Ripple podem ser uma alternativa mais barata aos bancos.
Transacções rápidas e baratas - o XRP Ledger é uma das redes mais eficientes para mover valor. Com confirmações em 3-5 segundos e taxas de fracções de cêntimo, é uma opção prática para quem usa cripto para pagamentos.
Investimento - a grande maioria das pessoas que compra $XRP hoje fá-lo porque acredita que o preço vai subir, especialmente agora que o processo com a SEC foi resolvido.
DeFi na XRPL - nos últimos anos e seguindo o exemplo da concorrência, o XRP Ledger expandiu-se para albergar aplicações descentralizadas e NFTs. Ainda é um ecossistema pequeno comparado com a Ethereum, mas está a crescer. Para se ter uma ideia da discrepância em termos de utilização ao nível do DeFi, actualmente, esta é a posição da XRPL no ranking das blockchains mais usadas:
#1 Ethereum
#2 Solana
#3 BNB Chain
#43 XRPL
Resumindo...
A Ripple é um caso único no mundo das cripto.
É uma empresa com clientes reais, contratos reais com bancos reais - incluindo alguns dos maiores do mundo - e um produto que resolve um problema genuíno.
Isto ajuda a explicar o motivo pelo qual é pouco relevante ao nível do DeFi (ao contrário de outras blockchains que vimos anteriormente), mas ao mesmo tempo, tem garantido ao XRP um lugar entre as 5 maiores criptomoedas do mercado (por market cap).
Por outro lado, é uma das criptomoedas mais centralizadas que existe, controlada em grande medida por uma única empresa, com um historial regulatório turbulento e uma relação complicada com a filosofia descentralizadora que define o sector das criptomoedas.
Se o futuro das finanças internacionais passar por redes como a da Ripple, o $XRP tem um papel a desempenhar.
Se os bancos centrais avançarem com as suas próprias moedas digitais (CBDCs) e tornarem o sistema SWIFT mais eficiente, a Ripple pode descobrir que o seu nicho encolheu.
Investir em $XRP é acreditar na ideia de que o sistema financeiro tradicional adopta tecnologia blockchain - mas apenas o suficiente para ser mais rápido, não o suficiente para deixar de ser o sistema financeiro tradicional.
O que, convenhamos, é um equilíbrio difícil de manter.
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NOTA: Como de costume, nada do que aqui foi dito é recomendação de investimento. Este é um artigo meramente informativo/educacional. Antes de investires em qualquer activo, faz a tua própria pesquisa.


