Ponto de situação dos mercados
O que se passou nos mercados na primeira metade de 2026
Metade do ano já se foi (mais do que isso até). Isto normalmente é motivo para crise existencial (para onde foi o Tempo?), mas hoje vamos canalizar essa ansiedade para algo mais produtivo: perceber o que raio aconteceu nos mercados nos últimos meses.
Bancos a bater recordes históricos, Bitcoin a perder metade do valor, a Fed com um novo chairman que se recusa a dizer o que vai fazer a seguir (o equivalente monetário de responder “depois vemos” quando te perguntam se queres ir jantar fora), e um Mundial de futebol que, ao que parece, não trouxe assim tantos empregos como prometeu. Já vamos aos detalhes.
Sim, estou a par da incoerência no título. Mencionei metade de 2026, apesar de já estarmos em Agosto. Mas houve um bom motivo para isso — earnings season! As empresas cotadas em bolsa começaram a divulgar os resultados mais recentes em finais de Julho e resolvi esperar antes de enviar este mail de ponto de situação. E é por aqui que começamos.
Earnings season: a culpa é do capex
A época de resultados do 2º trimestre de 2026 ainda decorre, mas os pesos-pesados já falaram, dos EUA à Europa, e há dois pontos em comum: a factura do investimento em Inteligência Artificial e claro, a boa e velha inflação.
No sector tecnológico, Google, Microsoft, Meta, Amazon e Apple reportaram todas receitas em linha ou acima do esperado — e mostraram que a procura por IA continua bem viva. Mas o mercado, ansioso e nervoso, deixou de se contentar com a mera ideia de “a receita cresceu”.
Se no trimestre anterior, os investidores já tinham mostrado preocupações, agora, o que o mercado quer mesmo saber é se a despesa gigantesca com centros de dados e outros investimentos em IA ainda fazem sentido. Juntas, a Amazon, Google, Meta e Microsoft estão a apontar para perto de 740 mil biliões de dólares de investimento em infraestrutura de IA em 2026 — um salto de cerca de 77% face a 2025. É dinheiro suficiente para comprar um pequeno país.
Apesar de todos os zeros alocados à IA, nem todas as gigantes tecnológicas estão a comportar-se da mesma maneira e o mercado está avaliar isso de formas diferentes.
A Microsoft defendeu com sucesso as suas despesas dizendo que “a procura por Azure é maior do que aquilo que conseguimos fornecer”. Além disso, sinalizaram também que não tencionam aumentar mais o capex em 2026. O mercado adorou isto e a acção chegou a saltar ~13% nesse dia.
A Amazon subiu ~10%, muito graças aos resultados históricos do AWS (o serviço de cloud), mostrando também que a procura não pára de aumentar.
A Meta, apesar de ter batido as expectativas de receita (mais 27-28% do que há um ano), afundou por não ter convencido ninguém de que a despesa avultada em capex está a ser puxada pela procura.
A Apple também ficou para trás, penalizada pela ausência de novidades apelativas, falhas nos serviços e por restrições de fornecimento — os aumentos dos preços dos Macs, iPads e possivelmente dos iPhones por causa da escassez global de memória, não convenceram ninguém.
Do lado europeu, quem deu nas vistas foi a alemã SAP, que disparou 10% depois de reportar uma carteira de encomendas na cloud acima do esperado.
Temos de falar também do cavalo de corrida da IA europeu, a ASML — a maior empresa do mundo a fabricar as máquinas necessárias para produzir os chips mais avançados de IA. Nos resultados do segundo trimestre, superaram as expectativas e a empresa voltou a subir as previsões para o resto do ano. A ASML disse também que a procura por chips de memória e de lógica avançada continua tão forte que a empresa vai aumentar 30% da sua capacidade de produção para 2027. A reacção do mercado foi mais modesta que o esperado — mas convém lembrar que a ASML já subiu ~77% desde Janeiro. Depois de uma subida destas, seria preciso apresentarem algo verdadeiramente revolucionário para convencer as pessoas a investirem ainda mais numa empresa que já estava no pico no dia que apresentou os resultados.
Resumindo o sector tecnológico nesta earnings season: já não basta gastar em IA, é preciso provar que vale a pena. Quem convence, sobe. Quem não convence, cai. Simples e implacável.
No sector financeiro, os cinco maiores bancos dos EUA — JPMorgan, Goldman Sachs, Bank of America, Citigroup e Wells Fargo — anunciaram resultados no mesmo dia, e todos bateram as estimativas de forma confortável. O JPMorgan registou o lucro trimestral mais alto de sempre na banca norte-americana. O Goldman Sachs teve o seu melhor trimestre de sempre, com lucro por acção quase a duplicar face ao ano anterior, muito graças às comissões do IPO da SpaceX.
Os bancos europeus, sem IPOs gigantes para lhes engordar as comissões, tiveram um trimestre mais discreto mas ainda assim sólido, dentro de um índice STOXX 600 que está a surpreender pela positiva: com mais de metade das empresas já reportadas, o crescimento agregado de resultados ronda os 20-23% homólogos — o melhor trimestre europeu desde finais de 2022.
Mas estes números escondem um pormenor importante: grande parte deste crescimento vem do sector energético, cujos lucros deverão disparar mais de 120% este trimestre, graças à subida do petróleo e à tensão no Médio Oriente. Se tirarmos a energia da equação, o crescimento europeu cai para uns modestos 6-7% — ainda positivo, mas claramente menos empolgante.
No sector de consumo, a história divide-se. Nos EUA, destaque para a Coca-Cola que surpreendeu pela positiva, ajudada pela campanha de marketing do Mundial que, segundo a empresa, chegou a mais de 80 milhões de consumidores. Junte-se a isto um aumento do volume de vendas e já se percebe o salto de ~7% da Coca-Cola. Na Europa, o consumo discricionário — moda, retalho, viagens não essenciais — está a mostrar os pontos mais fracos nesta época de resultados, tal como as telecomunicações. Isto ajuda a explicar porque os 20-23% de subida do STOXX 600, não são assim tão entusiasmantes quanto possam parecer.
Taxas de juro: tudo na mesma como a lesma...
Quem esperava alguma clareza sobre as taxas de juro, ficou na mesma: a Reserva Federal (Fed) está actualmente a ser liderada por alguém cuja estratégia de comunicação parece ser “dizer o mínimo possível para ver se não me comprometo”.
Em Julho, a Fed voltou a não mexer nas taxas, numa decisão que gerou a maior divisão de votos desde 2016: nove membros a favor de manter, três a defender uma subida. O novo chairman, Kevin Warsh — que substituiu Jerome Powell em Maio — tem repetido à exaustão que o objectivo é 2% de inflação e “não há meta implícita suave”. Claro e objectivo, mas também não deu uma única pista sobre como o vai fazer, alegando que prefere focar-se nas condições que levariam a uma acção, e não em promessas sobre o futuro. Ou seja: quem gosta de especulação, está nas sete quintas desde que Warsh chegou.
Do lado de cá do Atlântico, a novela é parecida. Muda o sotaque. O Banco Central Europeu (BCE) começou 2026 a cortar taxas, com a inflação a parecer controlada — e depois, em Fevereiro, a guerra entre os EUA e o Irão estragou a festa. Os preços da energia dispararam na Europa, e o BCE inverteu a marcha: em 11 de Junho, voltou a subir as três taxas directoras em 25 pontos base — a primeira subida desde 2023. Em Julho, manteve tudo na mesma, mas a presidente Christine Lagarde deixou o mercado com a pulga atrás da orelha ao admitir pressões para novo aumento. Traduzindo: o BCE não subiu taxas em Julho, mas deixou claro que Setembro está em cima da mesa — o mercado já dá essa subida como praticamente garantida, a menos que os preços da energia arrefeçam de forma significativa.
Ou seja, Fed e BCE estão essencialmente a cantar a mesma música: ambas cortaram taxas no início do ano, ambas foram apanhadas de surpresa pelo choque energético do conflito no Médio Oriente, e ambas estão agora a equacionar subidas em vez de cortes — o oposto do que se esperava no início do ano.
Mas há diferenças: nos EUA a inflação e a incerteza são maiores, e por isso a Fed hesita mais; na Europa, a inflação está mais perto da meta (2,8% em Julho, contra os 2% desejados) mas o crescimento está a abrandar — a economia da zona euro chegou a contrair 0,2% no primeiro trimestre — o que complica ainda mais a decisão do BCE entre travar a inflação e não sufocar uma economia já fraca.
Resumindo: ninguém sabe ao certo o que vai acontecer em Setembro, nem nos EUA nem na Europa.
Emprego: o Mundial prometeu empregos e entregou... uma desculpa estatística
Uma anedota para tornar este artigo mais leve. Antes do Mundial de 2026, disputado nos EUA, Canadá e México, a FIFA previu que o torneio criaria 185 mil empregos só nos Estados Unidos. A Casa Branca adoptou o número com entusiasmo.
O que aconteceu na realidade? Em Junho, os EUA criaram apenas 57 mil empregos, bem abaixo das expectativas. Análises posteriores, comparando cidades anfitriãs com cidades sem jogos, não encontraram diferenças significativas no emprego local. Ou seja: o maior evento desportivo do planeta passou pelos EUA e o mercado de trabalho parece não ter dado por ele.
Porque é que isto interessa para lá da anedota? Porque complica a leitura dos dados de emprego nos próximos meses. O consenso dos analistas é que os ganhos associados ao Mundial foram temporários e deverão inverter-se em Agosto, à medida que os postos de trabalho ligados ao evento desaparecem — o que pode fazer os números de emprego parecerem piores do que a tendência real. Junte-se a isto a queda da taxa de participação na força de trabalho para o nível mais baixo em 50 anos (61,5%) — o mercado de trabalho norte-americano está mais difícil de ler do que o habitual e talvez isto ajude a dar um certo desconto à postura da Fed.
O que se retira daqui é que os números do emprego devem ser vistos com desconfiança já que, por esta amostra, podem não reflectir a realidade.
Na Europa, a história é mais aborrecida, no bom sentido. A taxa de desemprego na zona euro tem oscilado entre 6,1% e 6,3% ao longo do primeiro semestre de 2026, sem grandes sobressaltos. Nenhum Mundial para complicar as contas por cá — só a rotina de sempre: Alemanha com desemprego baixo (3-4%), Espanha e Finlândia lá em cima nos dois dígitos, e o desemprego jovem persistentemente mais alto que a média geral. Previsível e quase reconfortante depois de olhar para os EUA.
Cripto: a Bitcoin caíu, as stablecoins subiram e os americanos continuam a discutir regras
Quem comprou Bitcoin (ou alguma altcoin) no final do ano passado, deve estar a revirar os olhos sobre tudo o que tenha a ver com cripto. Mas esta é o problema de se comprar nos picos de entusiasmo e de se olhar só para os preços.
Recapitulando: a Bitcoin atingiu um máximo histórico de ~125 mil dólares em Outubro de 2025 e, desde então, caiu para metade (desde Junho que anda na zona dos 61-63 mil dólares).
As causas não foram um esquema fraudulento nem uma exchange a rebentar (como nos dramas de 2022); desta vez foram as forças macro a somarem-se: conflito entre EUA e Irão a aumentar os receios de inflação descontrolada, dólar mais forte, Fed com postura bem defensiva, e semanas seguidas de saídas de dinheiro dos ETFs de Bitcoin. Resumindo: a Bitcoin tem-se comportado como um verdadeiro activo de risco tradicional — sobe quando há optimismo e cai com o medo. Coincidência ou não, o certo é que o ciclo da Bitcoin continua a repetir-se.
Mas — e este é o ponto mais interessante do semestre — enquanto o preço da Bitcoin apanhava uma tareia, o resto da infraestrutura cripto continuou a ser construída calmamente nos bastidores, através das stablecoins.
O mercado das stablecoins ultrapassou os 300 mil milhões de dólares em valor, com o volume de transacções a bater os 30+ biliões de dólares em 2025 — mais do que o volume combinado processado pela Visa e Mastercard juntas. E são precisamente a Visa e a Mastercard que estão a apostar tudo nisto, mas de formas opostas: a Mastercard comprou a empresa de infraestrutura BVNK (digno de nota por ter sido a maior aquisição cripto da sua história), enquanto a Visa preferiu construir uma rede de parcerias — já com mais de 160 programas de cartões ligados a stablecoins espalhados pelo mundo, com volumes a crescer quase 200% ano a ano.
Junta-se a isto rumores de que a própria Stripe, Visa e Mastercard estão a construir uma stablecoin conjunta para desafiar o duopólio da USDT (Tether) e USDC (Circle), que juntas controlam cerca de 80% do mercado, e percebe-se que o verdadeiro campo de batalha cripto deste ano não é o preço do Bitcoin — é quem controla os “dólares digitais”.
Como se tudo isto não bastasse, há que meter a IA ao barulho, nomeadamente, os agentes de IA. São várias as teorias que sustentam que os agentes de IA optarão por utilizar stablecoins para fazer pagamentos, devido à sua eficiência. Coincidência ou não, o assunto foi falado na recente apresentação de resultados da Mastercard, onde a empresa confirmou que continua a desenvolver a infraestrutura necessária para o Agent Pay — o serviço que permite a agentes de IA fazerem pagamentos rápidos, em volume e de forma segura entre si, sem intervenção humana.
E depois há o CLARITY Act, a lei norte-americana que tenta finalmente pôr ordem nas criptos e definir se uma Bitcoin é tratada como uma acção ou como o ouro. Já foi aprovado na Câmara dos Representantes em 2025, e a Comissão Bancária do Senado aprovou a sua versão em Maio de 2026. Desde então, ficou preso numa espécie de limbo legislativo: sem data de votação, à espera de acordo entre partidos sobre pontos como ética presidencial e regulação de DeFi.
Daqui a uns dias (10 de Agosto) começa o período de férias do Senado, e se a lei não passar até lá, terá de esperar por Setembro — altura em que outro assunto deverá assumir maior importância: as eleições intercalares.
O que é notável é quem está a fazer lóbi: BlackRock, Fidelity, Franklin Templeton, Goldman Sachs e SoFi juntaram-se publicamente a defender a lei nas últimas semanas — sinal de que Wall Street tem um claro interesse nesta lei.
Resumindo o panorama cripto deste início de Agosto de 2026: enquanto o preço está a fazer uma siesta, os grandes bancos e os reguladores estão a finalizar toda uma infraestrutura que pode moldar o futuro do sistema financeiro. Pode não parecer, mas é provavelmente a história mais importante do sector neste ano, só que sem aquelas movimentações de preços dramáticas que fazem manchetes.
Em resumo
Até agora, 2026 trouxe-nos bancos com os melhores trimestres da história, tecnológicas a decidir se a factura da IA vale a pena, uma Fed que fala pouco e não promete nada, um Mundial que prometeu empregos e entregou estatísticas confusas, e uma Bitcoin que caíu para metade enquanto a infraestrutura à sua volta vai sendo moldada pelos “donos disto tudo”.
Lição a tirar deste primeiro semestre: os mercados continuam a fazer exactamente aquilo que sempre fizeram — surpreender toda a gente, em direcções diferentes. O resto do ano promete ser, no mínimo, igualmente imprevisível.
Daqui a uns meses, fazemos novo ponto de situação.
Se achaste este artigo útil, partilha-o!
NOTA: Como de costume, nada do que aqui foi dito é recomendação de investimento. Este é um artigo meramente informativo/educacional.


