Diário Cinzento

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Money Markets: o activo mais aborrecido que convém conhecer

O amigo forreta do nosso portfolio que raramente compromete

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Jul 08, 2026
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Há investimentos que dão para conversa de jantar - Bitcoin, Nvidia, aquela cripto que “vai ser a próxima Ethereum”. E há investimentos que não dão para conversa nenhuma, porque a resposta mais honesta a “e como é que isso funciona?” é “ganha uns cêntimos por dia e mais nada”. Os Money Markets, ou mercados monetários, pertencem inteiramente a esta segunda categoria.

Ninguém organiza um podcast sobre eles. Ninguém aparece na televisão de fato e gravata a explicar a sua “tese de investimento” em mercados monetários. E, ainda assim, é provável que sejam um dos activos mais úteis para ter na carteira - especialmente em alturas em que “esperar sentado” pode, de facto, valer a pena.

No final do artigo de hoje, vais ficar a perceber: o que são, como funcionam, porque interessam e que opções existem para quem vive em Portugal.


O que são exactamente os Money Markets

Um Money Market é, resumidamente, um sítio onde o dinheiro fica “estacionado” a ganhar juros, em vez de ficar parado numa conta à ordem a ganhar zero.

Agora a parte técnica sem complicar: os fundos de mercado monetário investem em dívida de muito curto prazo e baixo risco - depósitos overnight, dívida pública com maturidades curtíssimas, papel comercial de empresas com bom nível de crédito. Nada de Acções, nada de obrigações a 10 anos, nada de dramas.

O objectivo destes fundos não é ajudar-nos a aumentar o nosso capital. É ajudar-nos a preservá-lo e, já agora, ir rendendo qualquer coisa próxima da taxa de juro de referência do momento.

Todos temos aquele amigo forreta e responsável que nunca nos vai levar a jantares caros, mas que também não nos vai ligar do nada a pedir dinheiro emprestado. No mundo dos investimentos, o Money Markets é esse amigo.


Como funcionam

O mecanismo é simples. O gestor do fundo (ou do ETF) pega no dinheiro de todos os investidores e empresta-o, essencialmente de um dia para o outro, a bancos e outras instituições financeiras, seguindo taxas próximas da taxa overnight da zona euro - o famoso €STR (Euro Short-Term Rate).

Esta taxa, por usa vez, acompanha a taxa de depósito definida pelo BCE, que em Junho de 2026 subiu para 2,25%.

Ou seja: se a taxa do BCE sobe, o rendimento do nosso Money Market sobe também, quase em tempo real. Se desce, acontece o mesmo ao valor do Money Market. É um activo de rendimento variável e de prazo curtíssimo - o oposto de se comprar um Certificado de Aforro e ficar “preso” a uma taxa durante anos.

No caso dos ETF’s de mercado monetário, grande parte replica a evolução do €STR. Compra-se uma unidade de participação como se compra qualquer outro ETF, e o valor da unidade vai subindo lentamente, dia após dia, à medida que os juros se vão acumulando. Nada de dividendos a cair-nos na conta - é tudo reinvestido automaticamente, o que, como já veremos, também tem a sua vantagem fiscal.


Porque são úteis

Razões práticas para se considerarem Money Markets:

  • Alternativa a deixar dinheiro parado. Se temos dinheiro numa conta à ordem “só porque sim”, estamos literalmente a perder poder de compra para a inflação.

  • Gestão de liquidez. Precisamos de ter dinheiro disponível para uma despesa que pode acontecer daqui a 3, 6 ou 12 meses? Um Money Market permite-nos ganhar juros sem estarmos exposto à volatilidade das Acções.

  • “Parqueamento” de capital entre investimentos. Vendemos uma posição e ainda não sabemos bem onde re-alocar esse capital? Em vez de o deixarmos a apanhar pó ou a engordar algum banco, podemos usar um Money Market para render, enquanto decidimos com calma o que fazer a seguir.

  • Amortecedor num portfolio mais agressivo. Como já se falou por aqui noutras alturas de incerteza nos mercados, ter uma fatia em activos pouco sexy mas previsíveis, ajuda a equilibrar posições mais voláteis.

Volto a frisar, não é um activo para fazer crescer o património. É um activo para não se perder terreno enquanto decidimos o próximo passo - ou para quem simplesmente prefere dormir descansado.


As opções disponíveis para quem vive em Portugal

Vamos à parte prática.

Não existe (ainda) o equivalente português a uma “money market account” bancária tal como existe nos EUA, mas há alternativas bem acessíveis através de corretoras.

Contas remuneradas ou depósitos a prazo - a opção mais tradicional e mais fácil de entender - o banco paga-nos um juro fixo (ou indexado) para termos lá o dinheiro. Costuma ter menos flexibilidade do que um ETF e, dependendo do banco, taxas menos competitivas.

Alguns neobanks e corretoras também oferecem esta facilidade. Basta criar conta, transferir para lá dinheiro, activar a opção de rentabilizar dinheiro não investido e ele é automaticamente aplicado em Money Markets escolhidos pela própria corretora. Nestes casos, a taxa de juro pode ser ligeiramente inferior ao de um ETF. Como diz o povo, “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte...”.

ETF’s de mercado monetário em euros - são a forma mais simples e líquida de nos expormos a isto. Os nomes mais conhecidos no mercado europeu são o Xtrackers II EUR Overnight Rate Swap UCITS ETF (XEON) e o Amundi/Lyxor Smart Overnight Return UCITS ETF (CSH2), ambos acumulativos e com comissões de gestão (TER) tipicamente entre 0,09% e 0,12% ao ano. Tal como qualquer outro ETF, podemos comprá-los em qualquer uma das corretoras já mencionadas em artigos anteriores.

Como sempre, os nomes aqui mencionados servem apenas de exemplo e não são recomendação - faz a tua própria pesquisa antes de decidir.

Certificados de Aforro e Certificados do Tesouro. Não são Money Markets, mas cumprem uma função parecida para muita gente em Portugal: capital protegido pelo Estado e uma taxa que também acompanha, de forma indirecta, o contexto de juros. A diferença é que aqui o dinheiro é menos líquido (há penalizações por resgates antecipados nalguns casos) e a taxa não se ajusta ao minuto, ao contrário de um ETF de mercado monetário.


Se algum termo deste artigo for novidade para ti, espreita o Dicionário de apoio.

Os riscos dos Mercados Monetários

A palavra “monetário” tem um efeito calmante sobre as pessoas, como se estivéssemos a falar de dinheiro guardado numa gaveta. Não é bem assim. Como em qualquer investimento, aqui também há riscos que convém conhecer.

Riscos inerentes aos próprios Money Markets

  • Não há garantia de capital. Ao contrário de um depósito bancário, um Money Market não é coberto pelo Fundo de Garantia de Depósitos. Estamos a investir, não a depositar - a distinção parece subtil até ao dia em que deixa de ser.

  • Risco de contraparte. O fundo empresta o nosso dinheiro a bancos e instituições financeiras. Se uma dessas contrapartes falhar, o fundo (e, por extensão, nós) vamos sentir uma pancada. É um risco baixo, sobretudo porque os prazos são curtíssimos e a diversificação é elevada, mas “baixo” não é o mesmo que “zero”.

  • Risco de taxa de juro em sentido inverso. O mesmo mecanismo que faz o rendimento subir quando o BCE sobe as taxas, faz o rendimento descer quando o BCE as corta. Se estamos à espera de um rendimento fixo e previsível ano após ano, há risco de desilusão - isto acompanha o mercado, para o bem e para o mal.

  • Risco de liquidez em cenários extremos. Em condições normais, podemos entrar e sair em Money Markets quando quisermos. Em alturas de crises financeiras graves (2008 é o exemplo clássico), alguns fundos monetários nos EUA tiveram dificuldades em cumprir resgates ao ritmo esperado. É raro, mas não é impossível.

Riscos inerentes às contas remuneradas (bancos e corretoras)

  • A taxa “atractiva” costuma ter prazo de validade. Muitas contas remuneradas de bancos e corretoras oferecem uma taxa promocional nos primeiros meses e depois baixam-na silenciosamente. Vale sempre a pena ler as letras pequenas, não as letras que aparecem nos anúncios. Há instituições que só baixam quando o BCE baixa e há outras que vão baixando à medida que vão angariando novos clientes.

  • Nem todo o dinheiro “remunerado” está protegido da mesma forma. Depende se estamos a falar de um depósito bancário tradicional (coberto até 100 mil euros pelo Fundo de Garantia de Depósitos) ou de cash numa corretora, que geralmente está a investir esse dinheiro em fundos monetários por trás dos panos - e aí aplicam-se os riscos do ponto anterior, mesmo que a interface da app nos mostre um saldo tão sereno como uma conta à ordem. As corretoras são obrigadas a divulgar esta informação, mas costuma estar em letras bem pequenas ou secções da app que poucos vão ver.

  • Risco de contraparte da própria corretora ou banco. Corretoras não são todas iguais em termos de solidez financeira, regulação e jurisdição. Antes de confiarmos uma fatia significativa do nosso património a uma plataforma, convém perceber onde e como está guardado o dinheiro - a segregação de fundos é o mínimo indispensável que devemos confirmar antes de começar a usar qualquer corretora.

  • Condições que mudam discretamente. Limites mínimos, comissões de manutenção, alterações à taxa - tudo isto pode mudar de um mês para o outro, normalmente comunicado num email ou numa notificação discreta na app. Mais uma vez, as corretoras são obrigadas as comunicar estas alterações - mas nem toda a gente lê os mails que recebe ou a notificação que importa no meio de tantas outras.

Riscos inerentes à compra via ETF

  • Risco de mercado do próprio ETF. É baixo, mas existe - o valor da unidade de participação pode, em teoria, descer, sobretudo em períodos de tensão extrema nos mercados de crédito de curto prazo. Não é algo que aconteça com frequência, mas “ETF de mercado monetário” não é sinónimo de “impossível perder dinheiro”.

  • Risco cambial, se escolheres o ETF errado. Existem ETF’s de mercado monetário em dólares, libras e outras moedas. Se vives e gastas em euros mas compras um ETF em USD, estás a assumir risco cambial sobre um activo cujo objectivo era, precisamente, ser previsível. Ironia à parte, o recomendável é escolher sempre a versão em EUR se é essa a tua moeda do dia-a-dia.

  • Risco de réplica sintética. Alguns destes ETF’s replicam a taxa através de swaps com contrapartes bancárias, em vez de deterem os activos directamente. Isto acrescenta uma camada extra de risco de contraparte, ainda que regulada e limitada pelas regras UCITS. Expliquei aqui como identificar o tipo de replicação de um ETF.

  • Comissões e spreads que comem o já pouco que rende. O TER costuma ser baixo (0,09% a 0,12%), mas a isso soma-se a comissão da tua corretora e o spread de compra/venda. Num activo cujo rendimento anual anda à volta de 2%, cada décima de comissão pesa proporcionalmente muito mais do que pesaria num ETF de acções.

  • Risco de liquidação do fundo. Gestoras de activos fecham ou fundem fundos com alguma regularidade, normalmente por falta de escala. Não perdes o capital por isso, mas é um incómodo administrativo que ninguém pede.

Em resumo: o risco existe, é geralmente pequeno e bem gerido pelas entidades reguladoras europeias - mas fingir que não existe é precisamente o tipo de coisa que, mais tarde, se paga caro.


E os impostos?

Em Portugal, os ganhos obtidos com ETF’s (incluindo os de Mercado Monetário) estão sujeitos à taxa de 28% sobre as mais-valias, no momento em que os vendemos. Como os ETF’s mencionados acima são de acumulação (não distribuem dividendos), não há retenção na fonte ao longo do caminho - o imposto só é apurado quando for vendido. Isto tende a ser fiscalmente mais eficiente do que opções que vão pagando juros regularmente, sujeitos a tributação a cada pagamento.

Comparando com as opções das contas remuneradas, a opção ETF pode ser mais vantajosa para quem esteja a pensar recorrer a Money Markets durante vários anos. Apesar das mais valias dos ETFs estarem sujeitas a 28%, o imposto baixa para 25,2% para os casos em que as vendas são feitas 2 anos após a aquisição. E quem aguardar mais de 5 anos para vender esse ETF, estará sujeito uma taxa de IRS ainda menor (22,4%).

Dito isto, convém mencionar que não sou fiscalista, nem contabilista e a tua situação pode ter especificidades - vale sempre a pena confirmar com um profissional antes de tomares decisões com base nisto.


Conclusão

Money Markets são activos bem cinzentos, dificilmente darão boas histórias para contar num jantar, mas é provavelmente um dos activos mais subestimados por quem está a começar a investir.

Às vezes, o aborrecido é exactamente aquilo de que uma carteira precisa.

Na secção de hoje dedicada aos apoiantes do Diário Cinzento, partilho 3 sugestões diferentes sobre como integrar Money Markets num portfolio...

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