Money Markets: o activo mais aborrecido que convém conhecer
O amigo forreta do nosso portfolio que raramente compromete
Há investimentos que dão para conversa de jantar - Bitcoin, Nvidia, aquela cripto que “vai ser a próxima Ethereum”. E há investimentos que não dão para conversa nenhuma, porque a resposta mais honesta a “e como é que isso funciona?” é “ganha uns cêntimos por dia e mais nada”. Os Money Markets, ou mercados monetários, pertencem inteiramente a esta segunda categoria.
Ninguém organiza um podcast sobre eles. Ninguém aparece na televisão de fato e gravata a explicar a sua “tese de investimento” em mercados monetários. E, ainda assim, é provável que sejam um dos activos mais úteis para ter na carteira - especialmente em alturas em que “esperar sentado” pode, de facto, valer a pena.
No final do artigo de hoje, vais ficar a perceber: o que são, como funcionam, porque interessam e que opções existem para quem vive em Portugal.
O que são exactamente os Money Markets
Um Money Market é, resumidamente, um sítio onde o dinheiro fica “estacionado” a ganhar juros, em vez de ficar parado numa conta à ordem a ganhar zero.
Agora a parte técnica sem complicar: os fundos de mercado monetário investem em dívida de muito curto prazo e baixo risco - depósitos overnight, dívida pública com maturidades curtíssimas, papel comercial de empresas com bom nível de crédito. Nada de Acções, nada de obrigações a 10 anos, nada de dramas.
O objectivo destes fundos não é ajudar-nos a aumentar o nosso capital. É ajudar-nos a preservá-lo e, já agora, ir rendendo qualquer coisa próxima da taxa de juro de referência do momento.
Todos temos aquele amigo forreta e responsável que nunca nos vai levar a jantares caros, mas que também não nos vai ligar do nada a pedir dinheiro emprestado. No mundo dos investimentos, o Money Markets é esse amigo.
Como funcionam
O mecanismo é simples. O gestor do fundo (ou do ETF) pega no dinheiro de todos os investidores e empresta-o, essencialmente de um dia para o outro, a bancos e outras instituições financeiras, seguindo taxas próximas da taxa overnight da zona euro - o famoso €STR (Euro Short-Term Rate).
Esta taxa, por usa vez, acompanha a taxa de depósito definida pelo BCE, que em Junho de 2026 subiu para 2,25%.
Ou seja: se a taxa do BCE sobe, o rendimento do nosso Money Market sobe também, quase em tempo real. Se desce, acontece o mesmo ao valor do Money Market. É um activo de rendimento variável e de prazo curtíssimo - o oposto de se comprar um Certificado de Aforro e ficar “preso” a uma taxa durante anos.
No caso dos ETF’s de mercado monetário, grande parte replica a evolução do €STR. Compra-se uma unidade de participação como se compra qualquer outro ETF, e o valor da unidade vai subindo lentamente, dia após dia, à medida que os juros se vão acumulando. Nada de dividendos a cair-nos na conta - é tudo reinvestido automaticamente, o que, como já veremos, também tem a sua vantagem fiscal.
Porque são úteis
Razões práticas para se considerarem Money Markets:
Alternativa a deixar dinheiro parado. Se temos dinheiro numa conta à ordem “só porque sim”, estamos literalmente a perder poder de compra para a inflação.
Gestão de liquidez. Precisamos de ter dinheiro disponível para uma despesa que pode acontecer daqui a 3, 6 ou 12 meses? Um Money Market permite-nos ganhar juros sem estarmos exposto à volatilidade das Acções.
“Parqueamento” de capital entre investimentos. Vendemos uma posição e ainda não sabemos bem onde re-alocar esse capital? Em vez de o deixarmos a apanhar pó ou a engordar algum banco, podemos usar um Money Market para render, enquanto decidimos com calma o que fazer a seguir.
Amortecedor num portfolio mais agressivo. Como já se falou por aqui noutras alturas de incerteza nos mercados, ter uma fatia em activos pouco sexy mas previsíveis, ajuda a equilibrar posições mais voláteis.
Volto a frisar, não é um activo para fazer crescer o património. É um activo para não se perder terreno enquanto decidimos o próximo passo - ou para quem simplesmente prefere dormir descansado.
As opções disponíveis para quem vive em Portugal
Vamos à parte prática.
Não existe (ainda) o equivalente português a uma “money market account” bancária tal como existe nos EUA, mas há alternativas bem acessíveis através de corretoras.
Contas remuneradas ou depósitos a prazo - a opção mais tradicional e mais fácil de entender - o banco paga-nos um juro fixo (ou indexado) para termos lá o dinheiro. Costuma ter menos flexibilidade do que um ETF e, dependendo do banco, taxas menos competitivas.
Alguns neobanks e corretoras também oferecem esta facilidade. Basta criar conta, transferir para lá dinheiro, activar a opção de rentabilizar dinheiro não investido e ele é automaticamente aplicado em Money Markets escolhidos pela própria corretora. Nestes casos, a taxa de juro pode ser ligeiramente inferior ao de um ETF. Como diz o povo, “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte...”.
ETF’s de mercado monetário em euros - são a forma mais simples e líquida de nos expormos a isto. Os nomes mais conhecidos no mercado europeu são o Xtrackers II EUR Overnight Rate Swap UCITS ETF (XEON) e o Amundi/Lyxor Smart Overnight Return UCITS ETF (CSH2), ambos acumulativos e com comissões de gestão (TER) tipicamente entre 0,09% e 0,12% ao ano. Tal como qualquer outro ETF, podemos comprá-los em qualquer uma das corretoras já mencionadas em artigos anteriores.
Como sempre, os nomes aqui mencionados servem apenas de exemplo e não são recomendação - faz a tua própria pesquisa antes de decidir.
Certificados de Aforro e Certificados do Tesouro. Não são Money Markets, mas cumprem uma função parecida para muita gente em Portugal: capital protegido pelo Estado e uma taxa que também acompanha, de forma indirecta, o contexto de juros. A diferença é que aqui o dinheiro é menos líquido (há penalizações por resgates antecipados nalguns casos) e a taxa não se ajusta ao minuto, ao contrário de um ETF de mercado monetário.
Os riscos dos Mercados Monetários
A palavra “monetário” tem um efeito calmante sobre as pessoas, como se estivéssemos a falar de dinheiro guardado numa gaveta. Não é bem assim. Como em qualquer investimento, aqui também há riscos que convém conhecer.
Riscos inerentes aos próprios Money Markets
Não há garantia de capital. Ao contrário de um depósito bancário, um Money Market não é coberto pelo Fundo de Garantia de Depósitos. Estamos a investir, não a depositar - a distinção parece subtil até ao dia em que deixa de ser.
Risco de contraparte. O fundo empresta o nosso dinheiro a bancos e instituições financeiras. Se uma dessas contrapartes falhar, o fundo (e, por extensão, nós) vamos sentir uma pancada. É um risco baixo, sobretudo porque os prazos são curtíssimos e a diversificação é elevada, mas “baixo” não é o mesmo que “zero”.
Risco de taxa de juro em sentido inverso. O mesmo mecanismo que faz o rendimento subir quando o BCE sobe as taxas, faz o rendimento descer quando o BCE as corta. Se estamos à espera de um rendimento fixo e previsível ano após ano, há risco de desilusão - isto acompanha o mercado, para o bem e para o mal.
Risco de liquidez em cenários extremos. Em condições normais, podemos entrar e sair em Money Markets quando quisermos. Em alturas de crises financeiras graves (2008 é o exemplo clássico), alguns fundos monetários nos EUA tiveram dificuldades em cumprir resgates ao ritmo esperado. É raro, mas não é impossível.
Riscos inerentes às contas remuneradas (bancos e corretoras)
A taxa “atractiva” costuma ter prazo de validade. Muitas contas remuneradas de bancos e corretoras oferecem uma taxa promocional nos primeiros meses e depois baixam-na silenciosamente. Vale sempre a pena ler as letras pequenas, não as letras que aparecem nos anúncios. Há instituições que só baixam quando o BCE baixa e há outras que vão baixando à medida que vão angariando novos clientes.
Nem todo o dinheiro “remunerado” está protegido da mesma forma. Depende se estamos a falar de um depósito bancário tradicional (coberto até 100 mil euros pelo Fundo de Garantia de Depósitos) ou de cash numa corretora, que geralmente está a investir esse dinheiro em fundos monetários por trás dos panos - e aí aplicam-se os riscos do ponto anterior, mesmo que a interface da app nos mostre um saldo tão sereno como uma conta à ordem. As corretoras são obrigadas a divulgar esta informação, mas costuma estar em letras bem pequenas ou secções da app que poucos vão ver.
Risco de contraparte da própria corretora ou banco. Corretoras não são todas iguais em termos de solidez financeira, regulação e jurisdição. Antes de confiarmos uma fatia significativa do nosso património a uma plataforma, convém perceber onde e como está guardado o dinheiro - a segregação de fundos é o mínimo indispensável que devemos confirmar antes de começar a usar qualquer corretora.
Condições que mudam discretamente. Limites mínimos, comissões de manutenção, alterações à taxa - tudo isto pode mudar de um mês para o outro, normalmente comunicado num email ou numa notificação discreta na app. Mais uma vez, as corretoras são obrigadas as comunicar estas alterações - mas nem toda a gente lê os mails que recebe ou a notificação que importa no meio de tantas outras.
Riscos inerentes à compra via ETF
Risco de mercado do próprio ETF. É baixo, mas existe - o valor da unidade de participação pode, em teoria, descer, sobretudo em períodos de tensão extrema nos mercados de crédito de curto prazo. Não é algo que aconteça com frequência, mas “ETF de mercado monetário” não é sinónimo de “impossível perder dinheiro”.
Risco cambial, se escolheres o ETF errado. Existem ETF’s de mercado monetário em dólares, libras e outras moedas. Se vives e gastas em euros mas compras um ETF em USD, estás a assumir risco cambial sobre um activo cujo objectivo era, precisamente, ser previsível. Ironia à parte, o recomendável é escolher sempre a versão em EUR se é essa a tua moeda do dia-a-dia.
Risco de réplica sintética. Alguns destes ETF’s replicam a taxa através de swaps com contrapartes bancárias, em vez de deterem os activos directamente. Isto acrescenta uma camada extra de risco de contraparte, ainda que regulada e limitada pelas regras UCITS. Expliquei aqui como identificar o tipo de replicação de um ETF.
Comissões e spreads que comem o já pouco que rende. O TER costuma ser baixo (0,09% a 0,12%), mas a isso soma-se a comissão da tua corretora e o spread de compra/venda. Num activo cujo rendimento anual anda à volta de 2%, cada décima de comissão pesa proporcionalmente muito mais do que pesaria num ETF de acções.
Risco de liquidação do fundo. Gestoras de activos fecham ou fundem fundos com alguma regularidade, normalmente por falta de escala. Não perdes o capital por isso, mas é um incómodo administrativo que ninguém pede.
Em resumo: o risco existe, é geralmente pequeno e bem gerido pelas entidades reguladoras europeias - mas fingir que não existe é precisamente o tipo de coisa que, mais tarde, se paga caro.
E os impostos?
Em Portugal, os ganhos obtidos com ETF’s (incluindo os de Mercado Monetário) estão sujeitos à taxa de 28% sobre as mais-valias, no momento em que os vendemos. Como os ETF’s mencionados acima são de acumulação (não distribuem dividendos), não há retenção na fonte ao longo do caminho - o imposto só é apurado quando for vendido. Isto tende a ser fiscalmente mais eficiente do que opções que vão pagando juros regularmente, sujeitos a tributação a cada pagamento.
Comparando com as opções das contas remuneradas, a opção ETF pode ser mais vantajosa para quem esteja a pensar recorrer a Money Markets durante vários anos. Apesar das mais valias dos ETFs estarem sujeitas a 28%, o imposto baixa para 25,2% para os casos em que as vendas são feitas 2 anos após a aquisição. E quem aguardar mais de 5 anos para vender esse ETF, estará sujeito uma taxa de IRS ainda menor (22,4%).
Dito isto, convém mencionar que não sou fiscalista, nem contabilista e a tua situação pode ter especificidades - vale sempre a pena confirmar com um profissional antes de tomares decisões com base nisto.
Conclusão
Money Markets são activos bem cinzentos, dificilmente darão boas histórias para contar num jantar, mas é provavelmente um dos activos mais subestimados por quem está a começar a investir.
Às vezes, o aborrecido é exactamente aquilo de que uma carteira precisa.
Na secção de hoje dedicada aos apoiantes do Diário Cinzento, partilho 3 sugestões diferentes sobre como integrar Money Markets num portfolio...



