Jesse Livermore: o especulador que fez (e perdeu) fortunas
Porque também se aprende com os erros os outros...
Jesse Livermore - conhecido como “O Grande Urso de Wall Street” - foi um dos traders mais lendários da história e é o primeiro desta série que já não está entre nós.
Nasceu em 1877 em Massachusetts, começou a negociar com apenas 14 anos em “casas de apostas” e ganhou dinheiro ao identificar padrões de preços naqueles quadros negros, de ardósia, onde se escrevia com giz.
Tornou-se uma super-estrela de Wall Street, fazendo (e perdendo) várias fortunas ao longo da sua vida.
Foi a inspiração para o clássico “Reminiscences of a Stock Operator“, um dos livros de negociação mais citados de sempre - metade biografia, metade sessão de terapia para qualquer pessoa que já tenha feito uma má negociação.
A relevância de Livermore
Tornou-se um dos primeiros grandes traders de momentum e seguimento de tendências.
Obteve lucros enormes com operações de short selling durante o Pânico de 1907 e novamente durante o crash de 1929, ganhando mais de 100 milhões de dólares (sim, em dólares de 1929).
Desenvolveu versões iniciais de regras de negociação que os traders modernos ainda hoje utilizam: seguir tendências, cortar perdas, nunca fazer preço médio para baixo e esperar pela confirmação.
Mostrou como a psicologia é, muitas vezes, o maior factor para o sucesso no trading.
Foi um pioneiro, um génio e - ocasionalmente - o seu próprio pior inimigo.
A filosofia de Jesse Livermore
Poderia ser resumida a duas palavras disciplina e análise de preços:
A tendência é nossa amiga: costuma ser melhor seguir a direção do mercado em vez de lutar contra ela - daqui veio o chavão ainda hoje repetido constantemente “the trend is your friend“.
Espera pela confirmação: não forces, não dês pontapés - deixa o mercado mostrar as suas cartas.
Corta os prejuízos rapidamente: pequenas perdas são lições; grandes perdas são traumas.
Nunca reduzas o teu preço médio: aumentar posições perdedoras é um atalho para o desastre.
Sê paciente com os ganhos: deixa os lucros correrem; não retires dinheiro da mesa demasiado depressa.
Controla as tuas emoções: a ganância e o medo são os inimigos a quem deves prestar atenção.
Se considerássemos Buffett como o monge Zen, pela sua paciência para o investimento a longo prazo, podemos dizer que Livermore era o acrobata do mercado financeiro - brilhante, ousado e, ocasionalmente, de pernas para o ar.
Se alguns dos termos usados neste artigo são novidade para ti, consulta o Dicionário do Diário Cinzento.
As grandes jogadas de Livermore
As operações de short selling durante o Pânico de 1907, que levou J.P. Morgan a pedir-lhe pessoalmente que deixasse de operar short-selling no mercado para restaurar a estabilidade.
As operações de short selling durante o Crash da Bolsa de 1929, que lhe valeram mais de 100 milhões de dólares quando o mercado entrou em colapso.
A criação de regras fundamentais de negociação ainda utilizadas por traders profissionais de todo o mundo.
As lições de Livermore que sobreviveram às décadas
Tendo passado por duas das maiores crises da História e lucrado notoriamente com elas, ficaram algumas citações célebres, que um século depois, continuam a ser repetidas por profissionais da área:
“Nunca foi a minha forma de pensar que gerou muito dinheiro. Foi sempre a minha capacidade de estar sentado.” - uma referência à capacidade de manter a calma e saber aguardar pelo momento certo para agir.
“Perder dinheiro é o menor dos meus problemas. Uma perda nunca me incomoda depois de a sofrer.” - relembrando-nos da importância de saber cortar prejuízos cedo. Os problemas surgem, geralmente, quando não se consegue fazer esse corte.
“Para um trader operar com sucesso no mercado financeiro, é uma batalha emocional que tem de enfrentar e não uma batalha intelectual.” - se Livermore fosse nosso contemporâneo, aposto que seria convidado assíduo de podcasts de desenvolvimento pessoal.
As críticas ao estilo de Livermore
Alto risco - pelo descrito, é fácil de perceber porque a abordagem dele não é a mais adequada para a maioria dos investidores individuais.
Alavancagem e concentração dos investimentos - que também lhe valeram enormes perdas.
Hoje em dia, os mercados movem-se de forma diferente, tornando algumas das suas técnicas obsoletas ou mais difíceis de replicar.
A sua volatilidade pessoal (financeira e emocional) é um lembrete de que a mentalidade importa tanto como a estratégia.
Independentemente das limitações e críticas que possamos fazer à sua abordagem aos investimentos, a verdade é que a sua experiência serviu de base a muitas das teorias de investimento contemporâneas que se ouvem por aí, seja através de outros investidores de renome, seja através de livros e cursos especializados.
Mais uma vez, quero realçar que o Jesse Livermore não é propriamente o exemplo a seguir para a maioria de nós.
Mas considero que a sua história e a experiência que nos deixou, não devem ser ignoradas - bem pelo contrário, há muito que podemos retirar e aplicar do seu caso.
Na secção final de hoje - dedicada aos apoiantes do DC - resumo as notas que tirei para mim, da história de Livermore...


