O rascunho de hoje já estava escrito há algum tempo mas com tantos temas para abordar, a sua publicação foi sendo adiada.
Setembro acabou de começar — época de recomeços para muita gente — e pareceu-me boa altura para falar deste assunto, até porque o plano para as próximas semanas do DC passa por responder a questões/sugestões vossas, bem como começar a falar mais da criação/gestão de portfolios.
Antes disso, há algumas bases que considero essenciais estabelecer.
Durante os meus anos de estudo desta área, além dos livros e documentários, já acompanhei vários canais de YouTube, já estive inscrito em grupos privados (Discord e Telegram) e já participei em alguns fóruns online sobre investimentos — até chegar à conclusão de que investir é uma aventura pessoal.
Passando uns anos nisto, é fácil identificar as perguntas mais frequentemente em fóruns e comunidades online, das quais destaco:
“Tenho xxxx€ para investir, o que recomendam?”
“Se tivesse xxxx€, que percentagem colocariam em fundos, PPR, certificados, acções?”
“Quero começar a investir. Por onde começo?”
“Qual é a próxima BTC em que vocês estão a investir?”
O último tipo de pergunta denota uma mentalidade de apostador/a — alguém que quer colocar o seu dinheiro na próxima cripto ou acção que acha que vai explodir. E esta é logo a primeira distinção importante:
investir ≠ apostar
Quem não conseguir entender esta diferença vai ter grandes desilusões.
Os outros tipos de perguntas, são perfeitamente normais mas podem tornar-se perigosas na medida em que são feitas por pessoas que querem investir, não sabem bem como e esperam obter de respostas de:
anónimos na internet,
opiniões nem sempre fundamentadas,
Para depois decidirem o que fazer com o seu dinheiro.
Antes de continuar, gostaria de deixar claro — como em todas as outras “páginas” deste Diário — nada do que aqui está deve ser considerado como aconselhamento financeiro e que, as classificações de “apostador/a” e de perguntas “perigosas” mencionadas, não devem ser entendidas como críticas, mas sim, como alertas à navegação.
O objectivo deste Diário continua a ser o de apresentar informações, dados e convidar os/as leitores/as à reflexão. Cada pessoa sabe aquilo que é melhor para si.
É precisamente por esta última frase que devemos começar - cada pessoa sabe aquilo que é melhor para si.
Parece retirada de um livro de auto-ajuda, mas é o que melhor me ocorre e é uma afirmação fácil de sustentar.
Foi por isso que escolhi o título “investir é uma aventura pessoal” para hoje. Ir à aventura, implica ir à descoberta do desconhecido, que pode facilmente traduzir-se para o campo dos investimentos com:
A relação com o dinheiro — que nem sempre é bem a que imaginávamos antes de começarmos a investir.
A auto-descoberta, hoje em dia, este termo já é meio cringe, mas se leres até ao fim, vais perceber porque faz sentido;
Os objectivos, as metas.
A relação com o dinheiro
O dinheiro é uma ferramenta — não tem sexo, nem política, nem religião.
É uma ferramenta frequentemente usada como moeda de troca de bens e serviços. Mas dado o peso que tem na nossa sociedade, num nível mais metafórico, o dinheiro também pode ser considerado um espelho.
A forma como nos relacionamos com o dinheiro, reflecte o tipo de pessoa que somos.
Quem nasceu/cresceu num contexto de escassez ou onde o dinheiro era considerado como algo sujo, vai ver isso reflectido na forma como encara a área dos investimentos e, na verdade, tudo o que envolva dinheiro. Quando não se entende bem esta natureza, surgem comentários como:
“Se tem dinheiro, é porque está metido em negócios obscuros”
“Se fala muito de dinheiro, é um ganancioso, é preciso cuidado com ele”
“Trabalho honesto é do nascer ao pôr do sol. Isso do trabalhar de forma inteligente, é conversa de aldrabões”
Por outro lado, temos também as pessoas que têm uma relação muito mais desprendida com o dinheiro. Normalmente, é junto destas pessoas que ouvimos comentários, como:
“Chapa ganha, chapa gasta”
“Quando morrer, não levo nada comigo, por isso, mais vale gastar agora”
“Investir? E deixar de aproveitar as coisas boas da vida? Está bem, espera aí...”
São duas posições opostas e que podem parecer exageradas mas que, certamente, já todos ouvimos repetidamente e, se as analisarmos bem, não surgem do nada. Não são apenas coisas ditas da boca para fora. Derivam de crenças profundamente enraízadas que, como seria de esperar, se reflectem no comportamento das pessoas.
A auto-descoberta
Se olharmos para os Investimentos como um processo, uma viagem, podemos considerar a auto-descoberta, como a segunda etapa.
Começa quando ganhamos consciência de como é a nossa relação com o dinheiro e de como isso se manifesta nas nossas decisões, nas nossas escolhas.
Algumas pessoas, ganham esta consciência cedo e partem em vantagem nessa viagem/aventura. Outras, só aprendem com a experiência dos anos ou quando as coisas apertam.
Costumas comprar activos depois de subirem e vendes quando caem? Isto é típico de pessoas impacientes.
Deixas-te atrair por esquemas ou “oportunidades de uma vida”? Isto é comum em pessoas gananciosas ou desesperadas.
O mercado teve uma correcção e começaste a dormir mal ou a ter dores de barriga? Isto é comum em pessoas ansiosas e/ou mal preparadas.
Estas são apenas algumas das reacções mais comuns. Todos nós temos uma “bagagem emocional” e é normal passarmos por estas situações ou outras. Todos nós crescemos num determinado enquadramento socio-cultural e vivemos num certo contexto.
Nada disto nos define, mas pode condicionar-nos consideravelmente, se não tivermos consciência disso. É aqui que entra a auto-descoberta e o auto-conhecimento como caminho para a solução das situações descritas ou outras.
Os objectivos
Por fim, temos de voltar a falar dos objectivos. Qualquer pessoa que comece a investir, fá-lo porque tem alguns objectivos, tem algo em mente que quer alcançar.
E, como também já vimos em cima, todos temos contextos diferentes:
A mãe solteira;
O casal com dois filhos;
A pessoa empreendedora;
O jovem de 20 anos que mora com os pais;
Etc.
Ora, se os contextos são tão variados, como é possível responder às perguntas do início deste artigo em 2 ou 3 parágrafos sem conhecer o enquadramento pessoal/familiar/profissional da pessoa? Já para nem falar, do seu perfil de risco.
Sim, algumas das respostas obtidas nos fóruns/comunidades/redes sociais, podem apontar para possíveis caminhos.
Mas, respostas de 2 ou 3 parágrafos dificilmente superam o estudo, a leitura, o informar-mo-nos sobre as opções existentes no mercado e como adaptá-las aos nossos próprios contextos e aos diferentes objectivos.
Por isso, sim, investir é uma jornada, uma aventura de descoberta pessoal. Podemos aprender com as experiências dos outros mas, segui-las sem a devida auto-análise e sem a respectiva adaptação, é entrar num caminho perigoso.
Investir não é só sobre multiplicar dinheiro.
É sobre conhecermos as nossas crenças e limitações. É sobre gerir medos. É sobre paciência. É sobre aprender. É sobre praticar. É sobre não repetir erros. É sobre pensar pela própria cabeça.
E é por isso também que este Diário existe. Não conheço o teu contexto pessoal/familiar/profissional, nem o teu perfil de risco. Mas estudo regularmente os activos (Acções, ETFs e Criptos) de que falo por aqui. Partilho os meus estudos, análises e formas de pensar para que tu encontres algumas direcções e ideias que possas adaptar ao teu caso.
Considera este Diário Cinzento, como o meu próprio diário de investimentos. Só que em vez de estar guardado numa estante a ganhar pó, está aqui exposto na internet para quem o quiser ler e (espero eu) aprender algo.
Se conheces quem tenha interesse nos estudos e análises do DC, partilha este post.
NOTA: Como de costume, nada do que aqui foi dito é recomendação de investimento. Este é um artigo meramente informativo/educacional.


