O Portfolio Cinzento ainda é muito recente. É cedo para fazer balanços, mas precisamos de um ponto de partida, certo?
No final volto às 4 posições que o compõe e aos planos para as próximas semanas.
Antes disso, falemos de algo que interessa a todos — os desenvolvimentos macro mais recentes, com impactos tanto para investidores como para consumidores.
A primeira metade de Setembro ficou marcada pelas decisões dos bancos centrais (Fed, BCE e BoJ) bem como pelo Clarity Act (ou falta dele). Falámos de tudo isto e mais, aqui.
Desde então, em pouco mais de duas semanas, as coisas mudaram e mostraram, mais uma vez, a fluídez dos mercados e a importância de lhes prestar atenção.
A versão resumida é a de que as yields continuam a mandar.
Para quem não leu os artigos anteriores:
a yield é a rentabilidade exigida por quem empresta dinheiro a um Estado. Quando as obrigações são vendidas, o preço desce e a yield sobe.
É importante entender isto, porque foi o que aconteceu nos EUA e ajuda a entender o que se tem passado nos mercados.
Os mercados estão a pedir uma recompensa maior (yield) por emprestar a longo prazo, porque toda a gente sabe que a dívida pública americana está altíssima e (aparentemente) descontrolada. A isto, junta-se a inflação energética.
Portanto, os bancos centrais podem fazer os seus malabarismos, mas enquanto a dívida continuar sem controlo aparente, os mercados não perdoam.
EUA: quando os maus resultados do emprego salvam os mercados
Pode parecer contraintuitivo, mas é verdade. Os resultados das ofertas de emprego de Setembro vieram abaixo das expectativas e o mercado accionista reagiu positivamente. Porquê? Porque se o desemprego está a aumentar, a Fed dificilmente aumentará o juros este mês.
Setembro fechou com o crescimento a abrandar e preços a subirem — com este cenário, se a Fed aumentasse juros agora, o resultado seria muito perigoso.
Perante isto, os principais índices americanos parecem mostrar alguma resiliência.
Mas é preciso ter cuidado com as aparências. Apesar dos máximos registados pelo S&P 500 e Nasdaq, se olharmos para os bastidores, podemos concluir que a economia americana continua a ser puxada pelo sector tecnológico, muito graças à corrida pela IA.
Como diz o povo, “uma imagem vale mais do que mil palavras” e o gráfico em cima mostra isso mesmo: o desempenho dos índices Nasdaq (NDQ), S&P 500 (SPX) e S&P 500 Equal Weight (SPW) desde o início do ano. O vencedor é claro e mostra bem o peso do sector tecnológico na economia americana (e não só). Este gráfico mostra-nos também porque devemos prestar atenção ao S&P 500 Equal Weight (o índice que trata as 500 maiores empresas americanas todas por igual).
Europa: chegou a factura da energia
Do nosso lado do Atlântico, apesar da dívida pública não ser tão escandalosa como a americana, o cenário não está assim muito melhor:
A inflação da zona euro subiu para os ~3,8%, o valor mais alto em três anos, muito por culpa da energia que subiu perto de 18% num ano;
As yields europeias seguem a tendência americana, com a alemã (Bund) nos 3,6%, a francesa nos 4,9%, a italiana nos 4,7% e a inglesa nos 5,9%.
O índice europeu (STOXX) fechou Setembro no vermelho;
As previsões sobre se o BCE aumentará novamente as taxas em Outubro são tão díspares, que nem vale a pena mencionar aqui previsões.
Ásia: mais do mesmo
Se dúvidas houvesse na expressão “economia global”, basta dizer que não há nada a destacar neste resumo, depois de tudo o que já foi dito.
Coreia do Sul e Taiwan continuam a ser os meninos bonitos da festa tecnológica graças à IA. Mas a volatilidade do KOSPI (índice sul coreano) mostra bem como este mercado depende da corrida do momento.
Da China também não há grandes novidades, depois da trégua comercial com os EUA, que foi renovada até 10 de Janeiro de 2027. Com as eleições intercalares no início de Novembro, Trump já começou a distribuir panos quentes e bandeiras brancas.
Na secção de hoje, dedicada aos apoiantes do Diário Cinzento, vamos ver como o panorama descrito afecta o Portfolio e como estou a posicionar-me para as próximas semanas.
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