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Paul Tudor Jones: o homem que ganhou enquanto o mundo desesperava

Como sobreviver (e lucrar) com 3 crashes históricos

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Jul 15, 2026
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Quando se fala de investimentos, principalmente para quem está a começar, é importante entender a diferença fundamental entre um investidor e um trader. O investidor compra algo e espera que o mercado lhe dê razão ao longo do tempo. O trader compra ou vende algo e espera que o mercado lhe dê razão esta semana. Ou hoje. Ou daqui a 1 hora.

Esta distinção é essencial para entender o nome de hoje: Paul Tudor Jones que é, na sua essência, um trader. Um dos melhores que alguma vez existiu. E a maior prova disso é o que fez numa segunda-feira de Outubro de 1987, quando o mercado de acções americano perdeu 22,6% do seu valor num único dia – o maior colapso diário da história moderna – e o seu fundo ganhou 62% nesse mês.

Enquanto toda a gente desesperava, Paul Tudor Jones tinha-se preparado exactamente para aquele momento. E estava a sorrir.


Quem é Paul Tudor Jones?

Paul Tudor Jones II nasceu em 1954 nos EUA. Frequentou a University of Virginia, onde foi campeão universitário de boxe. Pormenor curioso porque mais tarde ficaria conhecido por nunca levar um soco do mercado sem estar preparado para ele. Talvez os anos a treinar boxe tenham ajudado a moldar o mindset de Paul Tudor Jones.

Licenciou-se em Economia, começou a sua carreira na E.F. Hutton & Co. em Nova Iorque, onde rapidamente se destacou como trader. Trabalhou depois na New York Cotton Exchange, sob a tutela do lendário trader de algodão Eli Tullis, famoso pela sua frieza sob pressão – uma característica que Jones absorveu e ampliou.

Em 1980, fundou a Tudor Investment Corporation com 30.000 dólares de seed investment. Hoje, o Tudor Group gere cerca de 12 a 17 mil milhões de dólares em activos.

Em 1988, co-fundou a Robin Hood Foundation (nada relacionado com a famosa corretora dos tempos que correm), focada na redução da pobreza em Nova Iorque. Desde então, a fundação arrecadou quase 3 mil milhões de dólares para combater a pobreza. Jones juntou-se também ao Giving Pledge em 2019, comprometendo-se a doar a maior parte da sua fortuna. Talvez seja uma forma de equilibrar a balança, já que estamos a falar de alguém cuja especialidade profissional é ganhar dinheiro quando os outros estão a perder.


Porque é que Paul Tudor Jones é um nome relevante?

A resposta rápida: porque fez o que ninguém fez – gerir um fundo que nunca perdeu dinheiro durante os seus primeiros cinco anos, num dos períodos mais turbulentos da história financeira moderna.

A resposta mais completa: porque redefiniu o que é possível em gestão de risco, e demonstrou que o trading pode ser tanto uma disciplina intelectual rigorosa quanto uma forma de arte psicológica.

Desde a sua fundação em 1980, os fundos da Tudor Investment Corporation entregaram retornos líquidos anualizados de aproximadamente 19% até ao início dos anos 2010, superando significativamente o S&P 500, que em períodos similares teve uma média de cerca de 10-11% ao ano.

Jones foi também um dos primeiros grandes gestores de fundos a devolver capital aos investidores quando o fundo se tornou demasiado grande para executar a sua estratégia com a mesma eficácia – uma decisão extraordinariamente rara numa indústria onde as comissões crescem com o tamanho do fundo.

No mundo dos hedge funds, isto é o equivalente a um restaurante famoso fechar a reservas quando a qualidade da comida começa a sofrer. Isto não acontece – mas aconteceu com Jones.

Foi ainda imortalizado no livro Market Wizards de Jack Schwager, uma colecção de entrevistas com os maiores traders da história. A sua entrevista continua, décadas depois, a ser considerada uma das mais valiosas já publicadas sobre psicologia de trading.


Os investimentos que o tornaram conhecido

Black Monday, 1987 – a previsão que ficou para a História

Esta foi A jogada. O momento que definiu a carreira e a lenda de Paul Tudor Jones.

Usando análise técnica e padrões históricos, a equipa da Tudor identificou semelhanças perturbadoras entre as condições do mercado de 1929 e as de 1987 – e construiu posições curtas massivas antes do colapso

19 de Outubro de 1987 – conhecida até hoje como a “Black Monday” – o índice Dow Jones perdeu 22,6% do seu valor num único dia. O fundo de Jones ganhou 62% nesse mês de Outubro e terminou o ano com um retorno de 200%.

Para se entender melhor estes números: no dia em que o mercado americano registou a sua maior queda diária de sempre, Jones triplicou o dinheiro dos seus investidores.

Japão, 1990 – repetir a Black Monday mas numa língua diferente

Em Fevereiro de 1990, Jones comprou opções Put sobre o mercado de acções japonês, que viria a colapsar mais tarde. O fundo de Jones registou um retorno de 87,4% nesse ano.

O mercado accionista japonês tinha entrado numa bolha especulativa extraordinária nos anos 80. Jones identificou os padrões, posicionou-se – e esperou. O índice Nikkei não voltaria aos níveis de 1989 até décadas depois. Jones já tinha saído muito antes disso.

Tecnologia, 2001-2002 – mais uma moeda, mais uma voltinha

Entre 2001 e 2002, durante o rebentamento da bolha da internet, o fundo de Jones ganhou mais de 48% em apostas contra acções tecnológicas.

Três crises. Três apostas contrárias correctas. Com décadas de distância entre elas. Perante este histórico, é difícil dizer que o tipo teve sorte.

Bitcoin como cobertura contra a Inflação, 2020

Em Maio de 2020, Jones escreveu uma carta aos seus investidores – intitulada “The Great Monetary Inflation” – declarando que estava a comprar Bitcoin como cobertura contra a inflação provocada pelas políticas monetárias extraordinárias dos bancos centrais em resposta à pandemia.

Na altura, o Bitcoin estava abaixo de $10.000. Jones comparou o investimento a estar presente nas fases iniciais do Ouro como activo de reserva – ou, nas suas próprias palavras, era como investir em Steve Jobs e na Apple ou na Google nos seus primeiros anos. O Bitcoin ultrapassou $60.000 em 2021 e atingiu um máximo histórico de $126.080 em Outubro de 2025.

Jones não é um cripto-entusiasta como Tim Draper. É um macro trader que identificou uma assimetria – e agiu sobre ela com a mesma frieza com que apostou contra o mercado em 1987.


Se algum termo deste artigo for novidade para ti, espreita o Dicionário de apoio.

A Filosofia de Investimento de Paul Tudor Jones

“The most important rule is to play great defence, not great offence. Every day I assume every position I have is wrong.”
– Paul Tudor Jones

1. A defesa primeiro

A diferença entre Jones e a maioria dos traders não está na sua capacidade de identificar oportunidades de ganho. Está na sua obsessão com a protecção do capital.

“I’m always thinking about losing money as opposed to making money. Don’t focus on making money, focus on protecting what you have.”
– Paul Tudor Jones

Esta inversão – pensar em perder em vez de ganhar – é contraintuitiva mas matematicamente poderosa. Uma perda de 50% exige um ganho de 100% para recuperar o ponto de partida. Evitar perdas grandes é, a longo prazo, mais valioso do que acumular ganhos grandes.

2. A regra do 5:1

Jones procura oportunidades onde a recompensa potencial é pelo menos cinco vezes superior ao risco assumido:

“Five to one means I’m risking one dollar to make five. What five to one does is allow you to have a hit ratio of 20%. I can actually be a complete imbecile. I can be wrong 80% of the time, and I’m still not going to lose.”
– Paul Tudor Jones

Esta é uma das ideias mais libertadoras em toda a filosofia de trading: se o ratio risco/recompensa é de 5:1, podemos estar errados na maioria das vezes e ainda assim ganhar dinheiro. O objectivo não é ter sempre razão – é garantir que, quando temos razão, ganhamos muito mais do que perdemos quando estamos errados.

3. Análise técnica e macro global

O estilo de trading macro global de Jones baseia-se principalmente em análise técnica, com ênfase em factores de momentum que movem os mercados. Jones procura padrões históricos que se repetem – e usa indicadores como a média móvel de 200 dias como ferramenta de defesa. Quando o preço de um activo cai abaixo da sua média de 200 dias, é um sinal de alerta. Quando está acima, o ambiente é mais favorável.

4. O ego é o inimigo

“Don’t be a hero. Don’t have an ego. Always question yourself and your ability. Don’t ever feel that you are very good. The second you do, you are dead.”
– Paul Tudor Jones

Os apreciadores da filosofia estóica rapidamente reconhecerão esta forma de pensar. Jones passou décadas a cultivar uma forma paradoxal de confiança: a confiança de saber que pode estar errado. A sua regra de assumir diariamente que todas as suas posições estão erradas não é pessimismo – é uma forma de se manter vigilante, humilde, e preparado para agir quando a realidade não confirma as suas expectativas.

5. “Losers average losers”

Esta frase – uma das mais citadas de Jones – é um princípio de gestão de posições que vai contra o instinto humano mais básico - a tentação de melhorar a média das posições perdedoras.

Quando uma posição está a perder dinheiro, o instinto da maioria das pessoas é manter ou aumentar – para “baixar o preço médio” e recuperar mais facilmente quando o mercado virar. Jones faz exactamente o contrário: reduz posições quando está a perder, e aumenta quando está a ganhar. É psicologicamente difícil. É também a diferença entre sobreviver aos mercados e ser destruído por eles.


As críticas a Paul Tudor Jones

Tal como os grandes nomes já destacados aqui, a abordagem de Paul Tudor Jones também tem os seus próprios ângulos cegos.

1. A dificuldade de replicação pelo comum dos mortais

O trading de macro global que Jones pratica exige acesso a mercados de futuros, opções e derivados sofisticados, bem como capital suficiente para diversificar adequadamente entre múltiplas estratégias e classes de activos.

Muitos destes instrumentos, hoje em dia, já estão acessíveis à maioria das pessoas. No entanto, isto é apenas uma parte da equação. A maioria não tem acesso ao capital que Jones tem à sua disposição, nem às suas ferramentas de análise.

A filosofia é transferível. A execução, na sua forma original, não é.

2. Os retornos abrandaram significativamente

Depois do início dos anos 2000, os retornos de Jones abrandaram, provavelmente devido a uma abordagem de investimento mais conservadora. O fundo passou também por períodos de underperformance prolongada – em 2016, o Tudor BVI Fund perdeu cerca de 2% num ano em que o S&P 500 subiu 12%. Em resposta, o fundo reduziu as suas comissões e despediu 15% dos colaboradores.

O que isto sugere é que mesmo a melhor estratégia tem os seus limites temporais – e que as condições de mercado que favorecem o trading macro global não são permanentes.

3. As comissões elevadíssimas

O fundo de Jones chegou a cobrar 4% de comissão anual de gestão (face ao standard de 2% da indústria) + 23% dos lucros. Para o investidor que pretende ter acesso aos retornos de Jones, uma parte significativa desses retornos fica na firma. Esta estrutura de comissões pode fazer sentido para os melhores performers da história – mas é uma comparação muito desfavorável face a um índice de baixo custo para quem não consegue o acesso.

4. Controvérsias públicas – o custo da personalidade

Tal como outros nomes já abordados anteriormente, Jones tem também uma personalidade pública que por vezes joga contra ele. Em 2013, uma gravação de uma reunião na University of Virginia mostrou Jones a afirmar que as mulheres não conseguem focar-se adequadamente no trading de alta intensidade depois de terem filhos. Jones acabou depois por pedir desculpa pelas suas palavras.

Em 2025, o Wall Street Journal reportou ligações entre o seu fundo e Jeffrey Epstein nos anos anteriores à sua morte – com o fundo alegadamente a transferir 13,5 milhões de dólares para Epstein. A natureza exacta desta relação nunca foi totalmente esclarecida, sendo um rumor que vai continuar a pairar sobre o seu nome.

Estas controvérsias são irrelevantes para avaliar a sua filosofia de investimento – mas são relevantes para quem valoriza a coerência entre princípios declarados e comportamento.

5. O estilo de trading não é para todos – psicologicamente falando

Jones diz que assume diariamente que todas as suas posições estão erradas. Sai de posições imediatamente quando o mercado vai contra ele. Reduz exposição quando está a perder. Tudo isto soa razoável em teoria – mas é psicologicamente devastador na prática para a maioria das pessoas.

O nível de controlo emocional que a abordagem de Jones exige é extraordinário. A investigação em finanças comportamentais sugere que a grande maioria dos investidores individuais é sistematicamente incapaz de tomar decisões racionais sob stress financeiro.

Aprender as regras de Jones é fácil. Executá-las num mercado em queda livre, com o nosso próprio dinheiro, é completamente diferente.


Resumindo Paul Tudor Jones

  • Paul Tudor Jones é uma prova de que a gestão de risco não é a parte aborrecida do investimento – é a parte mais importante.

  • Ser humilde perante a incerteza do mercado não é uma fraqueza – é a única postura inteligente.

  • Ganhar dinheiro nos mercados não requer ter sempre razão – requer garantir que, quando estamos errados, a perda é gerível, e que, quando estamos certos, o ganho é transformador.

“Ninety percent of any great trader is going to be the risk control.”
– Paul Tudor Jones

É uma frase que inverte a narrativa popular do “génio financeiro” que identifica sempre a oportunidade certa. A genialidade de Jones não está no ter previsto o crash de 1987. Está em ter construído um sistema que o protegeria mesmo que estivesse errado – e que o posicionou para ganhar extraordinariamente quando estava certo.

O mercado vai continuar a fazer o que sempre fez: subir, descer, surpreender, e humilhar os arrogantes. Jones sabia disso em 1987. Continua a saber hoje. E os melhores investidores do mundo sabem que a única resposta inteligente a esta realidade é exactamente aquela que Jones pratica há quarenta anos: jogar uma defesa impecável, procurar assimetria, e assumir que se é bom o suficiente para dispensar a humildade.


Traduzir Paul Tudor Jones para o nosso dia a dia

Apesar das críticas que lhe são apontadas, há uns quantos pontos práticos que a maioria das pessoas pode usar no dia a dia.

Na secção de hoje dedicada aos apoiantes do Diário Cinzento, explico isso mesmo...

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