O IPO da SpaceX e a teoria do crash
Os dados VS o drama das redes sociais
Este Diário não costuma cobrir a actualidade, mas quando há acontecimentos que ameaçam a estabilidade da economia e, por consequência, de toda a gente que não viva off grid, então acho que há motivo para uma reflexão.
O IPO da SpaceX aconteceu há perto de duas semanas, estabeleceu um novo recorde e os funcionários da empresa que tinham sido compensados com acções, ainda devem estar a celebrar.
Já se passaram alguns dias e o tema continua a ser dos mais falados no meio dos mercados financeiros, media tradicional e claro, nas redes sociais - onde o exagero e a desinformação habitual, tem levado a diversos conteúdos a alertarem para o colapso iminente dos mercados globais.
Antes que o mundo acabe, vamos tentar perceber o que está em causa.
Os números antes do drama
A SpaceX estreou-se na bolsa no passado dia 12 de Junho de 2026 com o símbolo SPCX, a um preço de $135 por acção, e levantou a módica quantia de $75 mil milhões.
Para se ter uma ideia da escala: o anterior recorde de maior IPO da história pertencia à saudita Aramco, em 2019. A SpaceX fez só mais do dobro.
No primeiro dia de negociação, as acções subiram 30%, levando a capitalização de mercado para cerca de $2 triliões (sim, triliões).
Elon Musk não vendeu uma única acção e manteve cerca de 80% do poder de voto na empresa.
Aquilo que a SpaceX vai fazer a seguir é, na prática, o que Elon Musk decidir.
Agora os números menos glamorosos:
Receitas em 2025: $18,7 mil milhões (crescimento de 33% face ao ano anterior)
Prejuízo líquido em 2025: $4,9 mil milhões
Prejuízo só no 1.º trimestre de 2026: $4,28 mil milhões
Dívida acumulada: $41,3 mil milhões
Portanto: a empresa cresce bem, mas perde dinheiro. E não é um detalhe menor - este é precisamente um dos pontos no centro de toda a discussão em torno deste IPO de “sucesso”.
O Starlink, o serviço de internet por satélite da empresa, é a parte mais lucrativa: $4,4 mil milhões de lucro operacional com margens de 39%. O problema é que a fusão com a xAI (a empresa de inteligência artificial de Musk) consumiu tudo isso e ainda mais. A xAI sozinha queimou mais de $6 mil milhões em 2025.
Os economistas gostam de falar dos múltiplos das avaliações que, no caso da SpaceX, se traduz no facto da empresa estar a ser negociada a cerca de 96 vezes as suas receitas anuais.
Para se entender isto melhor, podemos comparar com a NVIDIA - a empresa que mais cresceu nos últimos anos - e que negoceia a cerca de 30 vezes.
Esta comparação significa que a SpaceX é três vezes mais “cara” do que a NVIDIA, com prejuízos.
Qual é a dissonância aqui?
É que a NVIDIA é uma empresa que gera dinheiro, que tem receitas e lucros robustos, graças a um produto claramente validado e desejado pelo mercado.
A SpaceX, apesar de ter negócios e produtos reais, baseia o seu valor nos planos de longo prazo. Os lucros do Starlink não chegam para suportar a sua avaliação. O seu valor está ancorado ao “potencial amanhã” - sendo a infraestrutura espacial para IA e a expansão para Marte, as suas grandes promessas.
Para justificar a avaliação actual, um analista da Morningstar calculou que a SpaceX precisaria de atingir cerca de $1 bilião em receitas anuais até 2035 - o que implicaria crescer 50% ao ano, durante dez anos seguidos. Até hoje, ainda nenhuma empresa o fez a esta escala.
Os argumentos dos pessimistas (alguns válidos, outros questionáveis)
Nas redes sociais, o IPO da SpaceX transformou-se no “catalisador da próxima grande crise” - ou será mais catalisador para gostos, partilhas e hype?
A liquidez
Talvez o argumento mais sólido. Quando uma empresa levanta $75 mil milhões, esse dinheiro tem de vir de algum lado. Os investidores institucionais que compraram SpaceX venderam outras coisas para o fazer - provavelmente acções da Apple, Nvidia, Microsoft. As estimativas apontam para que a inclusão da SpaceX nos índices Nasdaq e S&P 500 force os fundos de índice a rebalancear as suas carteiras, criando pressão de venda sobre as empresas que já lá estavam. Não é catastrófico, mas é real.
A bolha de avaliação
Também tem substância este argumento. A Morningstar atribui 43% de probabilidade a um cenário negativo em que a SpaceX valha menos de um terço da avaliação do IPO. O S-1 (o prospecto enviado à SEC) tem 38 páginas de factores de risco, incluindo dependência excessiva de Musk. Se Elon Musk der um passo em falso - político, pessoal ou empresarial - a acção pode cair muito rapidamente.
A comparação com 1999...
Este argumento talvez já seja um pouco descontextualizado. Um analista do Bank of America escreveu que “2026 está a parecer-se com 1999”. E sim, há uma certa euforia no ar. Mas há diferenças importantes: a SpaceX tem receitas reais e crescentes, clientes reais, contratos governamentais e um produto - o Starlink - que gera lucros consistentes.
Isto não é bem o mesmo que as empresas da era dotcom sem receitas, a vender sonhos sobre “a internet vai mudar tudo”. É uma empresa que lança foguetões, que tem estado a construir uma infraestrutura própria para IA e que vende o acesso à internet a mais de 9 milhões de utilizadores.
O “colapso iminente do mercado”
Este já me apareceu no Twitter/X, YouTube e Instagram e parece-me o argumento mais fraco de todos. Pesquisei, perguntei à IA e não encontrei nenhum mecanismo através do qual o IPO de uma empresa - mesmo muito grande - possa causar um crash geral dos mercados.
O que pode acontecer é algo normal nos mercados e de que já falámos anteriormente - a rotação de capital - o dinheiro sai de umas empresas e vai para outras, neste caso, para a SpaceX.
Isso faz com que as acções de outras empresas caiam. Mas não é uma crise sistémica. Quem anda a partilhar vídeos com “ALERTA VERMELHO: A QUEDA COMEÇA AGORA” provavelmente também o fez em 2021, em 2022, e em 2023.
O efeito Musk e o elefante na sala
A avaliação deste IPO levanta sobrancelhas mas aquilo que me parece mais preocupante é outra coisa.
Elon Musk controla cerca de 80% dos votos da SpaceX.
A SpaceX absorveu a xAI.
Musk é o maior accionista da Tesla.
Tem ligações ao governo americano através de contratos com a NASA e Departamento de Defesa.
E agora controla uma empresa cotada em bolsa com uma capitalização na casa dos $2 triliões, onde os accionistas minoritários têm muito pouco poder (para não dizer zero).
Qualquer decisão de Musk - fundir a SpaceX com outra empresa, desviar recursos para projectos pessoais, ou simplesmente postar uma coisa estranha no Twitter/X às 2 da manhã - pode afectar directamente a carteira de milhões de investidores que não têm qualquer forma de o contrariar.
Isto não é teoria da conspiração. Está escrito no prospecto.
A SpaceX foi estruturada de raiz para manter o controlo concentrado no fundador, em vez de seguir o modelo típico de uma empresa cotada com poder espalhado pelos accionistas.
Isto foi feito através da combinação de classes de acções com direitos de voto diferentes, permitindo a Musk ter uma fatia menor do capital económico, mas uma fatia muito maior do poder de decisão.
A lógica foi: os investidores entram para financiar a empresa, mas aceitam que Musk continue a mandar. Ou seja, acreditam piamente na sua visão de longo prazo e na sua tolerância ao risco.
Se há uns anos tínhamos as estrelas da música a levar os fãs a fazerem loucuras, hoje parece que temos os cérebros das big tech a fazerem o mesmo.
O que vem a seguir: OpenAI e Anthropic
O IPO da SpaceX foi apenas o início... quem se recorda deste artigo que escrevi em Janeiro, sabe do que estou a falar.
A Anthropic - a empresa que criou o Claude, o assistente de IA que está a tornar-se dominante no sector empresarial - apresentou o seu S-1 à SEC a 1 de Junho, com uma avaliação estimada de $965 mil milhões, podendo estrear-se em bolsa no último trimestre deste ano. As suas receitas anualizadas passaram os $47 mil milhões em Maio e a empresa deverá registar o primeiro lucro operacional no segundo trimestre de 2026.
A OpenAI - a mãe do ChatGPT - prepara-se para ser listada com uma avaliação próxima de $1 bilião. A previsão que mais tenho visto aponta para inícios de 2027, mas considerando a febre actual de IPOs e IA, não me surpreenderia se conseguissem antecipar a data.
Se estes dois IPOs se concretizarem entre 2026 e início de 2027, juntamente com a SpaceX, a captação total poderá ultrapassar $200 mil milhões - mais de quatro vezes o total de todos os IPOs americanos de 2025.
Isto é importante. Há riscos. Mas não como diz o hype social.
Acho muito difícil que o IPO da SpaceX, em específico, cause uma crise financeira global. Mas que veio introduzir mudanças no mercado - sem dúvida!
Daqui a menos de 1 ano, podemos estar a falar de apenas 3 empresas (SpaceX, OpenAI e Anthropic) que, em conjunto, estão avaliadas em cerca de $4 biliões.
Caso se confirme, isto é um evento sem precedentes.
Efeitos reais que resultarão daqui:
1. Rebalanceamento dos índices. Quando a SpaceX, OpenAI e Anthropic entrarem no Nasdaq (a nova regra de “fast entry” da Nasdaq veio facilitar/acelerar o processo), os fundos de índice - que representam mais de metade do dinheiro investido em bolsa - são forçados a comprar essas acções. Para isso, vendem outras. As “Magnificent 7” de hoje podem perder peso relativo nos índices, criando pressão vendedora estrutural naquelas que têm liderado os mercados nos últimos anos.
Ao Nasdaq podemos juntar também o S&P 500, embora aqui o processo para garantir a elegibilidade seja mais lento, o que significa mais tempo até se materializar.
2. O teste de avaliação da IA. Pela primeira vez, o mercado vai poder dar um preço diário e transparente às empresas de IA. Isto vai criar uma espécie de referência para toda a indústria. Se a SpaceX cair 30%, a conversa sobre “bolha da IA” torna-se muito mais difícil de ignorar. Se se mantiver ou subir, isso vai puxar mais capital para o sector.
3. A perigosa ligação entre a economia americana e o mercado accionista. Os EUA são a única grande economia do mundo onde a saúde do mercado bolsista e a saúde económica são praticamente sinónimos.
No contexto português isto pode ser estranho, mas nos EUA, fundos de pensões, planos de reforma, poupanças - está tudo indexado a estes mercados.
Uma correcção violenta não afecta apenas investidores.
Uma correcção violenta significa menos consumo, menos investimento, menos crescimento.
Neste contexto, a concentração crescente do mercado em menos empresas - Apple, Nvidia, Microsoft, e agora SpaceX - aumenta aquilo que se chama de “risco sistémico”.
Portanto, o problema não é o IPO da SpaceX “crashar os mercados”.
O problema é que torna um mercado já concentrado ainda mais concentrado, com empresas avaliadas a múltiplos que dependem de um futuro que ainda não existe.
Pode correr bem. Provavelmente até vai correr bem - pelo menos no curto prazo. Há capital, procura e narrativa suficiente para isso.
Mas se alguma destas empresas decepcionar nas primeiras demonstrações de resultados públicas - se o Starlink estagnar, se o ChatGPT perder quota de mercado, se a IA demorar mais a monetizar do que o prometido - a correcção pode ser rápida, violenta e transversal.
Como sempre, nos mercados: não é uma questão de se, mas de quando.
Se achaste este artigo útil, partilha-o com quem acha que o mercado vai cair amanhã.
NOTA: Como de costume, nada do que aqui foi dito é recomendação de investimento. Este é um artigo meramente informativo/educacional.


