IPO's - tudo o que precisas de saber
Como funciona um IPO e como evitar desilusões...
No início de cada ano há sempre muitas previsões e expectativas. Desde tendências de mercado até ao tentar adivinhar quem serão os “vencedores” do novo ano.
Como ainda estamos nos primeiros dias do ano, vamos falar antes de IPO’s - que têm a fama (e por vezes o proveito) de serem grandes agitadores do mercado - por vezes no bom sentido, outras vezes, nem tanto.
Neste artigo, vamos ver:
O que é um IPO;
Como funciona na prática;
O que é importante saber antes de investir num;
E porque é que muitos investidores acabam desiludidos (spoiler alert: não é azar);
O que é um IPO?
IPO significa Initial Public Offering ou, em bom português: Oferta Pública Inicial.
É quando uma empresa decide vender Acções ao público pela primeira vez e passa a estar cotada em bolsa.
Geralmente, as empresas começam por ser “privadas” - pertencem a quem as criou (os fundadores), investidores iniciais e/ou fundos de capital de risco.
A partir do momento que uma empresa lança um IPO, qualquer pessoa (como tu e eu), pode investir nessa empresa através da compra de Acções - conforme já falámos aqui. Ou seja:
Antes do IPO - empresa privada;
Depois do IPO - empresa pública (cotada em bolsa).
Porque é que uma empresa faz um IPO?
Apesar daquilo que o marketing pode tentar fazer parecer, não é um acto de generosidade para dar oportunidades a pessoas como nós.
As razões mais comuns para um IPO são:
Angariar dinheiro - a empresa vende Acções novas e recebe capital para crescer, pagar dívidas ou investir.
Estratégia para aproveitar a tendência - os mercados podem estar entusiasmados com um determinado sector, o que - geralmente - favorece a entrada de novas empresas nele.
Dar liquidez aos investidores antigos - fundadores e investidores iniciais querem, legitimamente, transformar “papel” em dinheiro real.
Prestígio e visibilidade - ter uma empresa cotada em bolsa dá notoriedade, credibilidade e acesso a mais capital no futuro.
Tudo isto é perfeitamente legal.
Mas há um pormenor que importa manter em mente: quem vende Acções num IPO, fá-lo porque acha que é um bom momento para vender.
Na prática, como funciona um IPO?
De forma muito resumida:
A empresa decide avançar com o IPO;
Contrata bancos de investimento (os “intermediários”);
Define-se um preço por Acção (ou um intervalo de preços);
As Acções começam a ser negociadas em bolsa;
O público pode comprar… ao preço que o mercado decidir;
Mais um pormenor importante para manter em mente: o preço do IPO não significa grande coisa. É apenas o preço a que alguém decidiu vender… e outro alguém decidiu comprar.
De forma muito simples, para investidores como tu e eu, o que interessa num IPO não é tanto o preço de lançamento, mas sim o que acontece a partir do primeiro dia de negociação em bolsa: a oferta e a procura - a lei inevitável dos mercados.
Alertas à navegação
Antes de se entrar num IPO há dois pontos importantes a realçar:
1 - Entrar num IPO não é “entrar cedo”.
Há a ideia de que para se “entrar cedo” numa empresa, tem de se aproveitar o IPO.
Não é bem assim.
Muitas vezes, a empresa já existe há anos. O crescimento explosivo pode ter já acontecido quando ela lançou um produto/serviço inovador que despertou o interesse do mercado.
Entrar num IPO não representa qualquer garantia de lucro.
2 - Esquemas e burlas.
Isto é muito frequente, principalmente quando se tratam de empresas conhecidas do público em geral, como a Tesla, Twitter, SpaceX, etc.
Normalmente, começam com anúncios nas redes sociais, por parte de “novas plataformas”, “novas corretoras”, que prometem dar “acesso antecipado” ao IPO dessa empresa conhecida.
Às vezes - menos comum - surgem “oportunidades” em comunidades fechadas de investidores. Algum dos membros diz ter acesso a um fundo de investimento que está a participar no financiamento da tal empresa conhecida que vai lançar o IPO.
Seja lá qual for a “oportunidade”, ela só interessa a quem gosta de passear à beira do abismo.
Para investidores com uma boa gestão de risco, que queiram apanhar um IPO, o melhor a fazer, é comprar após a listagem em bolsa, através das apps/corretoras que já todos conhecemos.
O que se deve analisar antes de investir num IPO
Simplificando, estes são os pontos a analisar numa empresa que acabou de lançar um IPO:
A empresa gera lucro? Atenção que esta pergunta é diferente de “gerar dinheiro”.
Tem um produto ou serviço que está a ser adoptado de forma maciça?
Para que vai servir o dinheiro do IPO? Crescimento, redução da dívida ou para os investidores iniciais venderem a parte deles?
Quais os termos dos acordos pre-IPO? Este documento - geralmente público - indica as regras segundo as quais os fundadores, investidores iniciais e trabalhadores da empresa podem vender as suas participações. De uma forma geral, há um período de 90 a 180 dias de lock up - que impede estas pessoas de venderem as suas participações imediatamente após a listagem em bolsa. Estes períodos e as condições variam com base nos acordos e as legislações dos países - como de costume, a Europa é mais restritiva nestes assuntos, do que os EUA.
A empresa está inserida no sector da “moda”? Como já referido, apanhar a onda do momento, pode ser benéfico para empresas novas no sector da “moda”. Mas, é sempre bom lembrar que, popularidade e bom negócio, nem sempre são sinónimos.
Qual é a urgência do 1º dia? Muitas pessoas querem comprar logo no dia do lançamento para aproveitar o entusiasmo inicial. Mas, também é muito comum que o entusiasmo desapareça de um dia para o outro, principalmente, se os financiadores iniciais resolverem realizar lucros do seu investimento - isto costuma resultar numa queda abrupta dos preços. Os investidores mais experientes (e pacientes), costumam aguardar pela primeira grande correcção dos preços, para só então comprarem as primeiras Acções.
Casos práticos
Para que tudo o que foi dito anteriormente faça mais sentido, aqui estão 4 exemplos distintos de IPO’s notáveis de 2025:
A CoreWeave é uma empresa de infra-estrutura de cloud focada em Inteligência Artificial.
Por este gráfico simples, podemos ver como o IPO foi bem recebido inicialmente, sobretudo porque o mercado estava (e continua) obcecado com tudo o que diga “AI”. No entanto, sabe-se que este tipo de negócio é altamente intensivo em termos de capital, com margens dependentes do custo de hardware e energia. Resultado: entusiasmo inicial, seguido de maior volatilidade - o valor das acções subiu cerca de 65% em poucos dias e depois devolveu tudo isso - a tal normalização - antes de começar então a subir novamente, impulsionado pela moda de 2025.
A Circle é a empresa por detrás do USDC, uma das stablecoins mais usadas no ecossistema cripto. O seu negócio principal passa pela gestão de reservas e a integração entre o sistema financeiro tradicional e o mundo cripto.
Este IPO foi um teste sério à maturidade do sector cripto. Teve interesse institucional, mas sem euforias. O mercado valorizou a transparência regulatória, mas manteve cautela já que estamos a falar do sector cripto, que ainda levanta muitas sobrancelhas.
No gráfico, pode ver-se o entusiasmo inicial de haver mais uma empresa de cripto cotada em bolsa mas, semanas depois, sofreu com o mesmo que as restantes empresas do sector.
À data da escrita deste artigo, as acções da Circle estão a ser negociadas praticamente ao mesmo preço do seu lançamento.
A Figma é uma plataforma de design colaborativo, usada por designers de todo o mundo e empresas tecnológicas. Tornou-se praticamente um standard na indústria, o que explica o enorme interesse à volta do seu IPO.
As expectativas eram altas, porque estamos a falar de uma empresa com uma base de utilizadores sólida, crescimento consistente e um modelo de negócio claro.
Ainda assim, o preço acabou por não reflectir isso. Como se vê no gráfico, iniciou a negociação perto dos $130 e, à data da escrita deste artigo, está entre os $37-39.
É um exemplo de que até empresas excelentes podem sofrer correcções quando as expectativas são demasiado altas - ou quando a menina bonita da escola está noutra turma (sector, neste caso). E, em 2025, já sabemos quem foi a “menina bonita da escola”.
A Chime é um banco digital (parecido ao europeu N26) focado em serviços financeiros simples para utilizadores nos EUA, que querem evitar as comissões tradicionais. Cresceu rapidamente durante os anos de dinheiro barato (taxas de juro baixas).
O mercado foi cauteloso, talvez porque a empresa tem um modelo de rentabilidade ainda pouco claro ou porque a concorrência deste sector é feroz. Ainda que tenham funcionalidades diferentes, comissões próximas de $0 já não são suficientes num mundo com Revolut e uma indústria de Criptomoedas.
A Chime é um bom exemplo de como o crescimento dos primeiros anos de existência, não foi suficiente para um IPO de sucesso. Tal como a Figma, até à data, o preço das suas acções nunca superou o preço de lançamento.
Conclusão
Os IPO’s são interessantes, mediáticos e cheios de promessas.
Mas também podem ser complexos, sobrevalorizados e uma armadilha para investidores menos experientes.
Como estamos no início do ano, claro que temos de falar dos próximos IPO’s.
Mas como este artigo já vai longo, o próximo - dedicado aos apoiantes do DC - será dedicado precisamente a isso - os IPO’s mais aguardados de 2026.
NOTA: como de costume, os nomes aqui mencionados são meramente exemplificativos/representativos do tema deste artigo.
Não são qualquer tipo de recomendação de investimento.
Cabe a cada a pessoa, fazer as suas próprias análises, antes de agir.
Investir implica colocar o capital em risco.






