És tu que vais pagar a IA?
Os riscos conhecidos, a nova ameaça e dicas para te protegeres
A conversa da “bolha de IA” já começa a ser um bocado repetitiva.
Mas, na semana passada, entre a Reuters e o Financial Times, surgiu a notícia de uma nova forma de financiamento que a NVIDIA quer colocar em marcha e que pode ter um impacto bastante significativo, tanto para investidores comuns, como para pessoas que não querem ter nada a ver com a Inteligência Artificial.
Peguei nessa notícia, juntei-lhe os riscos que a maioria de nós já conhece e aproveitei o fim-de-semana para escrever a minha (actual) tese sobre o risco da bolha da IA.
Não revires os olhos com o comprimento do artigo de hoje. A versão de 30 segundos já deve andar no TikTok/Reels — mas possivelmente não te explicam o impacto estrutural nem como te podes proteger.
Felizmente estás aqui, por isso, quando chegares ao final do artigo ficarás a perceber:
os riscos mais prováveis da IA;
a nova ameaça;
dicas para quem quiser precaver-se.
Os riscos já conhecidos
Um crash da IA
O raciocínio dos mercados, hoje, é mais ou menos este: “a IA vai mudar tudo, portanto vale a pena investir milhares de milhões.”
GPUs, data centers, redes elétricas, terrenos... são muitas as empresas a precisar deste financiamento.
Agora imagina que daqui a três anos a IA continua a ser fantástica, mas não tão lucrativa como se prevê hoje.
Talvez os modelos fiquem mais eficientes e passem a precisar de muito menos hardware. Ou talvez surjam ainda mais chips concorrentes. Ou talvez a procura de computação abrande.
Por outras palavras:
menos receitas → menos capacidade de pagar dívida → incumprimentos → perdas para quem emprestou dinheiro.
Do outro lado (quem emprestou dinheiro), podemos ter:
Fundos de pensões, seguradoras, fundos de investimento, bancos, crédito privado.
Isto não é especulação minha. O Bank of England fala disto no relatório de Julho passado — a dívida ligada à IA está a espalhar-se por mercados públicos, financiamento alavancado e estruturas de financiamento complexas.
Uma queda das bolsas
Este é o cenário mais visível — e o mais previsível. Hoje tudo o que cheira a IA vale ouro: a NVIDIA, as empresas de data centers, as eléctricas, os fabricantes de chips.
Mas, basta que apareça um modelo novo capaz de fazer o mesmo trabalho com 90% menos computação (óptimo para os consumidores, péssimo para quem gastou uma fortuna a construir capacidade) para o mercado começar a pensar “se calhar não precisávamos de tantos data centers assim”.
As repercussões disto serão algo como:
as avaliações descem → o investimento é cortado → o crédito fica mais caro → menos procura por infraestruturas → menores receitas → maior dificuldade em pagar dívida → mais perdas → o crédito fica ainda mais caro → menos investimento → estagnação
E, de repente, uma história que começou na tecnologia transforma-se numa história de economia geral.
Mais uma vez, volto aos alertas do FMI: alavancagem elevada sem os retornos esperados = choques económicos.
A questão energética
Este risco é mais fácil de entender — nem tudo no tema da IA se resume a financiamento sofisticado — há também física básica.
Já sabemos que os data centers de IA bebem electricidade como se não houvesse amanhã. Construir tudo isto depressa exige novas centrais, subestações, linhas de transmissão, baterias. E essa factura tem de ser paga por alguém: empresas, investidores, contribuintes ou, mais provavelmente, uma combinação de todos — através da nossa factura da luz.
Ou seja, mesmo quem não quer ter nada a ver com IA, pode acabar por pagar parte da factura.
O problema menos óbvio
A questão da dívida costumava ser simples de perceber: a empresa X pediu dinheiro emprestado ao banco Y. Isso reflectia-se nos relatórios de contas e era fácil de perceber quanto é que uma empresa devia.
Hoje, a mesma sofisticação usada para desenvolver a IA, está a ser usada também para a financiar e quase que obriga a um masters para se entender os termos — special purpose vehicles (SPVs), asset-backed securities, joint ventures, leasing, dívida estruturada, garantias cruzadas...
Tudo perfeitamente legal, mas cada vez mais difícil de seguir pelo comum dos mortais.
É como olhar para uma tomada elétrica e ver só um cabo, sem fazer ideia de que, atrás da parede, há catorze extensões, três adaptadores e alguém a rezar.
O Bank of England também destacou que estas estruturas fora do balanço tornam mais difícil saber onde está, realmente, o risco. E o risco que ninguém consegue localizar tem o hábito de aparecer sempre no pior momento.
Um exemplo disto:
Uma empresa de IA deve $20 mil milhões a vários investidores e deixa de conseguir pagar.
O investidor A perde dinheiro.
Mas este investidor A tinha pedido dinheiro emprestado ao investidor B.
Entretanto, há um data center que também entra em dificuldades.
Os preços dos activos descem.
Os bancos começam a querer proteger-se mais e a exigir mais garantias.
Empresas saudáveis passam a ter dificuldade em obter crédito.
E, de repente, uma empresa de IA que muitos não conheciam, consegue contribuir para encarecer o crédito de uma empresa perfeitamente normal em Portugal.
É assim que funciona o risco sistémico. É isto que preocupa o Bank of England e o FMI e não propriamente o risco da NVIDIA, AMD e companhia irem à falência.
O financiamento circular (agora com dinheiro de terceiros) — mais lenha para a fogueira
E assim chegamos à parte mais interessante (e potencialmente perigosa) desta história — a tal notícia da Reuters e FT sobre a ideia que a NVIDIA agora quer implementar para optimizar o financiamento de tudo isto.


