Bill Ackman: o investidor activista que gosta de uma boa luta
E que arrasta os outros com ele...
Bill Ackman é um investidor activista e fundador da Pershing Square Capital Management.
Nasceu em 1966, em Nova Iorque, e estudou em Harvard (licenciatura e MBA).
Fundou a Pershing Square em 2004 e rapidamente ficou conhecido por posições ousadas, de elevada convicção e por batalhas públicas com a gestão das empresas.
Se Warren Buffett investe em silêncio, Ackman investe com megafone.
É o tipo que não se limita a comprar ações - compra ações e atenção mediática.
A relevância de Bill Ackman
Popularizou o investimento activista moderno - o tipo de investidores que influenciam a estratégia das empresas para desbloquear valor.
Aproveitou a crise de 2008 como poucos. Investiu $60 milhões na General Growth Properties, uma operadora de centros comerciais americana à beira da falência. Comprou as ações depois destas desvalorizarem, tornou-se accionista maioritário e o seu lado activista entrou em campo. Pressionou a reestruturação pela via judicial, argumentando que os activos imobiliários da empresa eram sólidos e valiosos, apesar da dívida avultada da empresa. Foi iniciado um processo de “falência reorganizada” (segundo o Chapter 11), a empresa reergeu-se, foi vendida em 2010 e em pouco mais de 2 anos, rendeu ao fundo de Ackman perto de $1,6 biliões.
Executou uma das operações mais impressionantes da era COVID: um hedge de 27 milhões de dólares que rendeu 2,7 mil milhões em poucas semanas. No início da pandemia, investiu em credit default swaps - uma espécie de seguro contra calotes de dívidas corporativas. Com o pânico nos mercados, os spreads de crédito explodiram valorizando a sua posição em quase 10000%.
Ajudou a trazer as SPACs para o mainstream com a Pershing Square Tontine Holdings. Uma SPAC (Special Purpose Acquisition Company), é uma empresa “vazia” - não vende nada nem tem funcionários. Este tipo de empresas servem apenas para captar dinheiro do público, que é guardado num banco, até encontrarem uma empresa privada para comprar e levar à bolsa (IPO) de forma rápida. É um atalho (legal) para listar uma empresa privada na bolsa. Ackman fez isto na ressaca de 2020, usando as redes sociais para viralizar a ideia, atraindo muita gente (famosos incluídos).
Comunica de forma aberta (alguns diriam demasiado aberta), tornando o seu raciocínio acessível a outros investidores.
Goste-se ou não, é uma das vozes mais influentes dos mercados atuais.
A filosofia de investimento de Bill Ackman
A estratégia de Ackman mistura activismo, investimento em valor e elevada convicção:
Concentração: investe em poucas empresas, mas com forte convicção.
Melhorar empresas e não ter apenas participações: é conhecido pelo seu activismo por lutar por mudanças operacionais, melhor governança e liderança. Não se limita a comprar e esperar.
Visão de longo prazo: apesar do ruído mediático, não é um trader - é um proprietário de longo prazo.
Gestão de risco com hedges: A operação de 2020 é um exemplo clássico de proteção de capital. Resumidamente: ele não vendeu as posições de longo prazo, aguentou-as durante a queda, enquanto que usou 1% do portfolio para abrir uma posição alavancada contra o mercado (a favor da queda). E, foi extremamente disciplinado na entrada e saída desta posição alavancada. Abriu-a com um custo baixo (ainda antes da queda generalizada do mercado) e fechou-a assim que o FED anunciou estímulos para ajudar a recuperar a economia pós-choque pandémico. Por outras palavras: assumiu um risco (na posição alavancada) com um custo baixo e potencial de retorno alto. Se ele estivesse errado, poderia reequilibrar o portfolio, uma vez que manteve as posições de longo prazo que beneficiariam de uma subida do mercado.
Transparência: Partilha frequentemente análises detalhadas com o público.
Podemos pensar nele como uma mistura entre Warren Buffett e Gordon Ramsay: quer que o negócio funcione - e não tem problemas em levantar a voz.
Lições para Iniciantes
Foco em negócios de qualidade
“Se não estás disposto a manter uma ação durante 10 anos, não a compres por 10 minutos.”
Para Ackman, a visão de longo prazo vence o ruído de curto prazo.
Concentra-te nas melhores ideias
Ackman não tem dezenas de posições - escolhe poucas e aprofunda-as.
Para quem está a começar, isto traduz-se em: menos ativos, mas devidamente estudados/analisados.
Tem uma tese clara
“Tudo é um investimento de longo prazo… até deixar de ser.”
Por outras palavras:
sabe porque compraste,
sabe o que invalida essa tese.
Protege o risco
O hedge de 2020 explicado em cima, mostra como, mesmo com convicção numa posição alavancada, a gestão de risco é essencial para preservar o capital.
Não ter medo da crítica
“A rejeição não te destrói.”
Convicção + resiliência = melhores resultados.
Como aplicar isto com pouco dinheiro
Investir em empresas que consigamos explicar de forma simples.
Usar ETFs como base e adicionar algumas ações nas quais temos alta convicção (baseada na respectiva análise).
Escrever as nossas teses: porque comprámos, quais as expectativas e o que pode invalidá-las.
Evitar diversificação excessiva.
Definir regras de risco: por exemplo, se uma ação cair 20% por questões de fundamentos, há que equacionar assumir esse prejuízo em vez de esperar pelo melhor, que pode acabar em prejuízos bem maiores.
Ou seja, não precisamos de ter um hedge fund, basta-nos uma folha de excel, disciplina e paciência.
As críticas a Bill Ackman
As suas batalhas públicas podem amplificar problemas em vez de os resolver.
Concentração excessiva de posições - Ackman costuma fazer apostas grandes em poucas teses, o que aumenta o risco de perdas fortes quando está errado.
Teimosia em teses perdedoras. O caso da Valeant é frequentemente mencionado pelos seus críticos. A empresa já sinalizava problemas mas, como Ackman tinha uma posição grande, continuou a defendê-la, chegando mesmo a entrar no board da empresa para ajudar a reorganizá-la. Infelizmente, já era demasiado tarde para recuperar. Ackman acabou por vender tudo e assumir mais tarde o erro e prejuízos
Uso de short selling agressivo e prolongado. A campanha contra a Herbalife foi o caso mais mediático. Acusou publicamente a empresa de ser um esquema pirâmide e abriu uma posição short de $1 bilião contra a Herbalife. Esta campanha (que mais pareceu uma novela) durou quase 5 anos e acabou em derrota para Ackman - perdeu bastante dinheiro e alguma credibilidade.
O activismo exige influência que investidores como nós não têm - embora os princípios sejam aplicáveis.
Bill Ackman é daqueles nomes pouco consensuais:
há quem o admire pela sua inteligência, influência e estilo agressivo;
há quem não goste da sua abordagem, por roçar a irresponsabilidade, abuso de auto confiança e a consequente perda de objectividade.
Alguns dos termos usados neste artigo podem ser novidade para quem está a começar. Por isso, o DC tem um Dicionário 😉
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NOTA: Como de costume, nada do que aqui foi dito é recomendação de investimento. Este é um artigo meramente informativo/educacional.



